O vinho, do terroir à marca

a4

Um vinho é sempre a flor e o fruto de um equilíbrio singular e não reprodutível. Os antigos se maravilhavam, a sociedade industrial fica em pânico

Os romanos foram os primeiros globalizadores”, observou certa vez Pierre Legendre.1 A eles, então, o reino, o poder e a glória − era assim que Plínio, o Ancião, naturalista de língua latina nascido no ano 23 d.C., se felicitava: “Não há ninguém que não pense que, ao unir o Universo, a majestade do Império Romano fez progredir a civilização graças às trocas comerciais e à comunidade de uma feliz paz, e que todos os produtos, mesmo os que antes estavam escondidos, viram sua utilização se generalizar”.2

a2

Plínio abre dessa forma o livro XIV da História natural, consagrado à vinha, ao vinho e à vinificação, no quadro de uma primeira globalização feliz. O comércio do vinho era uma atividade muito antiga na região mediterrânea. Desde o fim da República e o início do Império, a Itália exportava tanto vinho quanto importava. Desde tempos remotos, mercadores e agrônomos desenvolveram o hábito de classificar os vinhos distinguindo sua origem. No final do século II a.C., era uma convenção que a qualidade do vinho estava mais relacionada a seu terroir(campo onde a uva é cultivada) e à sua região de produção que a seu modo de preparo – este último tendo principalmente sua importância na elaboração dos inumeráveis vinhos retificados, perfumados e aromatizados para corrigir uma cultura preguiçosa e uma vinificação defeituosa. Plínio evoca os crusitalianos, gauleses e espanhóis, depois os vinhos gregos, asiáticos e egípcios, cujo consumo era um sinal de distinção social em Roma. Já se prezavam os vinhos estrangeiros. O naturalista lamenta a moda. A respeito do vinho, ele contrabalanceia os males da moda e a ameaça que a extensão do comércio faz pesar sobre a arte dos homens, sobretudo sobre uma arte tão delicada quanto a de fazer vinho.

“Antes, os impérios, e por consequênciaos espíritos, estando limitados às fronteiras de sua nação, o magro campo deixado à aventura os levava fatalmente a cultivar as qualidades da inteligência. [...] A extensão do mundo e a imensidão das riquezas causaram a decadência das gerações seguintes.” Em matéria de vinicultura, o naturalista romano lamenta as consequências práticas dessa mudança de costumes: “Nossa época mostrou apenas poucos exemplos de perfeitos vinhedos”.

a3

Para compreender a situação do vinho na economia globalizada, é sempre perturbador lembrar o que observava Plínio no momento de uma primeira unificação do mundo em torno do Mediterrâneo. E é espantoso encontrar nele o testemunho antigo de uma “batalha do vinho”3 que é mais do que nunca a nossa: vinhos naturais contra vinhos maquiados, vinhos de terroir(nos quais prevalece o local de cultivo) contra vinhos de cepagem (que valoriza o tipo de uva utilizada), vinhos de artesãos contra vinhos de comerciantes, vinhos daqui contra vinhos de fora.

Não se bebia apenas vinho na época romana. Mas já se compreendia que não se tratava de uma bebida como as outras; sabia-se que existiam crus mais agradáveis que outros e que “dois vinhos irmãos da mesma vindima” podiam ser desiguais “por causa do recipiente ou de qualquer circunstância fortuita”; maravilhava-se com a importância do terroir; distinguiam-se os vinhos de Piceno, de Tibur, de Sabino, de Amínea, de Sorrento, de Falernum; bebia-se também cerveja e hidromel, mas dava-se ao vinho um privilégio e um mistério.

a5

Nascido da convergência de uma cepagem (ou de uma junção) particular, de um terroir dado, da arte de um vinicultor e das condições climáticas de um ano, um vinho é sempre a flor e o fruto de um equilíbrio singular e não reprodutível. Os antigos se maravilhavam, a sociedade industrial fica em pânico. Para as multinacionais do setor agroalimentar que gostariam de impor uma bebida universal ao mercado, um álcool de grãos – uísque, vodca ou gim – se adaptaria melhor: nenhuma necessidade geográfica de produção, nenhum problema de fornecimento de matéria-prima, nenhuma angústia meteorológica, nenhuma dificuldade de ajuste da oferta à demanda. Queremos acreditar que George Orwell pensou nisso ao fazer do “gim da Vitória” a única bebida alcoólica disponível no universo totalitário de seu romance 1984. Um licor ácido e transparente mas consolador que Winston Smith bebe no fim do livro, depois de ter enfim aceitado o poder do Big Brother.

Romanee-conti

O vinho tem o inconveniente de criar uma restrição de território. Para o Romanée-Conti, são 1,8 hectare e 6 mil garrafas produzidas por ano. Para um grupo mundial que sonha com esse carro-chefe dos vinhos da Borgonha, essa restrição da produção é particularmente problemática. Mais do que um terreno cercado de muros – mesmo que seja o mais prestigioso do mundo –, prefere-se então adquirir uma marca. Por exemplo, na Champagne, onde ninguém se pergunta sobre a explosão dos vinhos Krug ou Dom Pérignon desde sua aquisição pelo grupo Louis Vuitton-Moët Hennessy (LVMH), líder inconteste do luxo mundial. Educadamente, a imprensa especializada fala de “fornecimentos excepcionais”. Uma marca tem inclusive a vantagem de servir ao mundo inteiro. Vejamos a Chandon e seus espumantes produzidos na Argentina, na Califórnia, no Brasil, na Austrália, mas também na Índia e na China. Na Champagne, são produzidos 350 milhões de garrafas por ano. A demanda da nova classe média mundial por “borbulhantes” é dez vezes maior. O que o território não pode produzir, a marca o faz provendo ao mercado sparkling wines. Mas, sejamos honestos: os Chandons clínicos e tecnológicos são perfeitamente bebíveis e até mesmo muito bons.

chandon

Em seu documentário Mondovino,4 apresentado no Festival de Cannes em 2004, o cineasta norte-americano Jonathan Nossiter mostrou que o vinho tinha virado um produto como qualquer outro na sociedade de concorrência total. A tecnociência econômica globalizada estendeu seu império para todos os vinhedos do mundo por meio das marcas. Nas adegas azulejadas do Médoc, de Mendoza e do Nappa Valley, eles semeiam os mostos, corrigem a acidez do suco, colorem ou descolorem, turbinam e filtram os vinhos antes de comercializá-los em uma garrafa de Bordeaux com uma etiqueta internacional. Ao mesmo tempo, há algo de irredutível na lógica do território. O cineasta lembra isso ao filmar os vinhedos rebeldes nos Pirineus, na Sicília e na Argentina. Amável paradoxo da globalização: é no Brasil, no Chile, no Uruguai, na Grécia, na Geórgia, na Sérvia, no Japão e na China que aparecerão amanhã outros artesãos rebeldes às ordens da agroindústria. Pois o movimento dos vinhos naturais que se enriquece a cada ano de novos territórios também se torna global e mundial. Como na época de Plínio, uma rugosa batalha opõe aqueles que veem o vinho como um produto agrícola e os que o olham como um produto comercial. Nada mudou, a não ser em termos de escala, com o aparecimento da indústria, o desenvolvimento do marketing e a abertura infinita dos mercados.

KRUG-II

Existem com certeza os Doctors Strangelove do capitalismo total que sonham com um vinho único, assim como gostariam de uma água única, desmineralizada para apagar qualquer traço de sua origem, depois remineralizada e vendida nos cinco continentes. “O que eles querem é apagar a memória do gosto”, confiava-nos outrora Marcel Lapierre, líder improvisado de uma alegre guerrilha levantada contra os vinhos tristes na região de Beaujolais. Seu poder no mundo nos preocupa, seu desejo de potência nos alarma, seus objetivos nos aterrorizam. Ao mesmo tempo, não nos sentimos esses seres sem lugar nem memória capazes de esquecer o que observava Plínio: “Cada um se importa com o seu vinho e, onde quer que se vá, é sempre a mesma história”.

mondovino_capa

 

Fotos: Chuchotements et plaisir des yeux/ Sensualità
Fonte: Le Monde Diplomatique/Sébastien Lapague

a1

1 Ver Dominium mundi. L’empire du management [Dominium mundi. O império da gestão], de Gérald Caillat, sobre um texto de Pierre Legendre, DVD Idéale Audience International/Arte France, 2007.

2 Ler Plínio, o Ancião, História natural, XIV, texto escolhido, traduzido e comentado por Jacques André, Les Belles Lettres, Paris, 1958, p.24 e seguintes.

3 Ler Alice Feiring, La bataille du vin et de l’amour ou Comment j’ai sauvé le monde de la parkerisation [A batalha do vinho e do amor ou Como eu salvei o mundo da parkerização], Jean-Paul Rocher Éditeur, 2010.

4 Ver Mondovino, de Jonathan Nossiter, DVD TF1 Video, 2005, e principalmente Mondovino − La série, boxe com quatro DVDs, TF1 Video, 2006.


Um sonho de simplicidade

simples 5

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

simples 1

Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de  pudor, me supreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.

A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples  mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que  beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando  precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.

Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo  do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama,  na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.

simples 2

Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de  repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?

simples 4

Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas… Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.

simples 6

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número… Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, sem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

simples 8

Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas.
Fotos: Selma Meşe

simples 7

100 anos de Vinicius

Vinicius de Morais
*19/10/1913 – Rio de Janeiro (RJ)
+ 9/7/1980 – Rio de Janeiro (RJ)

Poeta / Compositor / Teatrólogo / Jornalista /Diplomata.

Celebrar o Centenário de Vinicius de Moraes é sinônimo de Poesia, Música e Paixão três vertentes que permearam sua vida e obra.

Poesia, Música e Paixão – Tudo Misturado.

 

Considerando-se que antes de nascer seu pai já havia lhe dedicado um soneto, a poesia nasceu antes de Vinicius chegar ao mundo. A partir daí sua trajetória se desenrolou envolta na mais pura, forte e arrebatadora emoção.

 

Com vocação poética manifestada nos tempos colegiais ele realiza suas primeiras incursões na música popular, no finalzinho dos anos 1920, quando trocou figurinhas com os irmãos Tapajós – Paulo, Haroldo e Osvaldo. Dessa amizade nasceram algumas canções, entre as quais o elogiado fox “Loura ou morena”, de Vinicius e Haroldo Tapajós.

 

Loura ou morena” (Vinicius de Moraes/Haroldo Tapajós) # Irmãos Tapajós. Disco Columbia (22138A), 1932.

 

No ano seguinte (1933) Vinicius escreveu letra para o fox  “Dor de uma saudade”, com música de Joaquim Medina, e para a valsa “Canção para alguém”, com Haroldo Tapajós, ambas gravadas na RCA Victor.

 

Ouça abaixo, clicando no nome da música.

Dor de uma saudade” (Vinicius de Moraes/Joaquim Medina) # João Petra de Barros. Disco Victor (33693A), 1933.

Canção para alguém (Vinicius de Moraes/Haroldo Tapajós) # Irmãos Tapajós. Disco Victor (33760B), 1933/1934.

 

Estas composições foram apenas um aperitivo, pois Vinicius somente voltaria a compor em 1952, com “Quando tu passas por mim” – parceria com Antônio Maria -, gravada por Aracy de Almeida.

Quando tu passas por mim” (Vinicius de Moraes/Antônio Maria) # Aracy de Almeida. Disco Continental (16820A), 1952.

Depois do aperitivo musical ele se voltou mais à poesia. Em 1933 publica seu primeiro livro – “O caminho para a distância” -, na Schimidt Editora. No breve texto de abertura, o poeta diz:

Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha [...]. São cerca de quarenta poemas intimamente ligados num só movimento, vivendo e pulsando juntos, isolando-se no ritmo e prolongando-se na continuidade, sem que nada possa contar em separado. Há um todo comum indivisível“.

 

 

Após 75 anos da primeira edição a Companhia das Letras relança (2008) “O caminho para a distância”, oportunizando aos leitores acesso a um livro marcado pela intensidade dos temas, dos sentimentos e da linguagem, escrito por um poeta que – com apenas dezenove anos – surpreendeu o público e a crítica com seus dramas místicos e existenciais.
O Poeta na Madrugada

 

Quando o poeta chegou à cidade
A aurora vinha clareando o céu distante
E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
E ele cantou a beleza da nova madrugada.
As mulheres beijaram a fronte do poeta
E rogaram o seu amor.
O poeta sorriu.
Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
E disse que a visão da beleza era da poesia
O poeta tem a alegria que vive na luz
E tem a mocidade que nasce da luz.
As mulheres seguiram o poeta
Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
O poeta amou a carne das mulheres
Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
O poeta quando ama
É como a flor que murcha sem seiva
Porque o amor do poeta
É a seiva do mundo
E se o poeta amasse
Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante
O poeta já tinha partido
E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
Falavam de ardentes promessas de amor.

 

Ao longo da sua trajetória publicou inúmeros livros, que podem ser consultados no Site Oficial Vinicius de Moraes. Além disso, produziu amplo acervo lítero-musical universalmente consagrado, do qual pretendemos selecionar alguns dos mais tocantes, abordando-os em futuros posts.

 

************

Fontes:

- Site IMS (Instituto Moreira Salles).

- Site Oficial Vinicius de Moraes.

- Site YouTube.

- Vinicius de Moraes: Nova História da Música Popular Brasileira. 2ª ed. revisada e ampliada. São Paulo: Abril Cultural, 1977.

 Fonte: GGN/Laura Macedo

O vinho que elas preferem?

1216885790De79vgVocê demora dias para conseguir levar aquela mulher especial para um lugar tranquilo, longe da confusão. Papo pra lá, papo pra cá, o garçon aparece e chega a hora de escolher o vinho. Aí bate uma dúvida: qual tipo de vinhos elas preferem?

Bem, saiba que uma pesquisa “As mulheres e o vinho”, publicada pela Vinexpo, e realizada com 10.500 mulheres de cinco países (França, Reino Unido, Alemanha, EUA e em Hong Kong), feita através da web pode dar uma luz e ajudar na decisão.
Aí vai uma dica:

- 51,1% das mulheres preferem vinho tinto, 26,4% vinho branco e 15,7% (principalmente entre 18 e 30 anos) preferem o vinho rosé.
Mais, – 58% das mulheres pensam conhecer vinho tanto quanto os homens.