E aí, como andam As parceiras ?

A premiada e consagrada autora brasileira Lya Luft apresenta sua obra “As Parceiras”. Este livro conta a história de Anelise, uma mulher de 40 anos que decide fazer um balanço de sua vida, resgatando seus momentos mais marcantes. Obra pedida no vestibular UFRGS 2014. Uma boa dica de cultura para nós, homens. E para as mulhres também.

As parceiras lyaUma melancolia sem desespero percorre os sete capítulos de As parceiras (1980), de Lya Luft, correspondentes à semana em que a narradora, recolhida na propriedade familiar numa cidade praiana, busca entender o passado e o presente. O estilo da escritora não tem truques, ela apenas conta uma história. Porém, com a segurança que caracteriza os bons ficcionistas.

Anelise acaba de perder seu único filho, vitimado por paralisia cerebral. Faz parte da herança trágica de uma família, iniciada nas desventuras de uma avó casada aos 14 anos e violentada peloAs parceiras 2 marido muito mais velho. Tudo é malogro na vida das von Sassen, cujo sobrenome alemão parece uma pista para o conteúdo autobiográfico – como sempre, de porcentagem dificilmente determinável – do romance.

A narrativa se dá em dois planos. No presente, a protagonista vai desvendando seu progressivo enredamento na infelicidade familiar. O passado, que rememora ao longo dos dias, vai costurado seu “filme” particular, feito de perdas tramadas em algum plano superior pelas “parceiras” do título, entidades vagamente sobrenaturais que lembram aquelas da mitologia grega: elas jogam num tabuleiro as vidas e mortes das personagens indefesas. Embora despido de sofisticações, o romance de Lya Luft tem uma inegável ligação com a tragédia grega.

Para que serve um romance assim? Talvez para nos lembrar que, nestes tempos nos quais a desgraça se multiplica pela espetacularização, ela existe de verdade, abate-se sobre as vidas de pessoas concretas e pode significar que nada vaAs parceiras 3le a pena. A narradora, com todos os motivos para isso, tem um pé na depressão. Nós a desculparíamos se seguisse o exemplo das outras suicidas do livro, sua avó e sua melhor amiga na infância.

As parceiras também nos recorda que a felicidade é uma abstração, por mais que todas as telas forjem o tempo todo a ficção das vidas altamente desejáveis das celebridades, a ilusão de que pelo menos os eleitos são felizes de verdade. Essa imagem fotoxopada de atrizes, jogadores de futebol e demais milionários da ocasião obscurece aquela mitologia das parcas e das erínias, entidades do “mal”. Medo versus desejo, e ambos vendem muito. A impressão de um cotidiano irreal é perturbada, com ganho para a autoconsciência, de que, na loteria do destino, a tragédia é uma possibilidade muito mais concreta que a entrada no Olimpo dos oficialmente felizes.

O desfecho do livroLyz Luft, propositadamente ambíguo, põe a narradora de mãos dadas com uma desconhecida que afinal se lhe revela. A morte? Ou um recado de que a vida ainda precisaria ser vivida?

Fonte: revistapessoa.com/