Sochi: custa o dobro da Copa 2014 e Rio 2016, juntas

1Uma olimpíada com uma tocha enviada ao Polo Norte e ao espaço, uma estrada pavimentada com “ouro e caviar” – nas palavras de um crítico – com contratos exorbitantes executados por amigos do presidente e um estádio para 40 mil pessoas que será usado apenas duas vezes.

Essas são algumas das peculiaridades dos Jogos de Inverno de Sochi, que começam nesta sexta-feira na Rússia, e estão sendo chamados de a “Olimpíada mais cara da história”. O orçamento não-oficial dos Jogos, de US$ 50 bilhões, seria suficiente para custear todas as obras somadas da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos do Rio 2016.

O governo russo afirma que o orçamento oficial é de US$ 7 bilhões – levando em conta apenas obras diretamente ligadas aos Jogos. Mas o governo reconhece que foram gastos os US$ 50 bilhões – quando somados todos os investimentos em infraestrutura na rica região de Sochi, no sul da Rússia.

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Em seu planejamento oficial, entre recursos públicos e privados, o Brasil está gastando uma fração desse valor para todas as obras – tanto as de infraestrutura como os estádios.

Segundo o mais recente balanço, divulgado em novembro pelo Ministério do Esporte, a Copa do Mundo de 2014 tem um orçamento de R$ 25,6 bilhões (ou cerca de US$ 10,6 bilhões, com o câmbio atual). Para a Olimpíada de 2016, foi previsto um orçamento de US$ 14,4 bilhões, segundo o documento de candidatura, com valores de 2009.

Especialistas acreditam que os custos dos eventos no Brasil ainda podem subir bastante – mas dificilmente chegariam perto do gasto na Rússia. A cidade de Londres gastou US$ 13,9 bilhões na Olimpíada de 2012.

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Olimpíadas e Copa: custos

Sochi 2014: US$ 51 bilhões

Pequim 2008: US$ 43 bilhões

Rio 2016: US$ 14,4 bilhões*

Londres 2012: US$ 13,9 bilhões

Copa no Brasil 2014: US$ 10,6 bilhões**

Vancouver 2010: US$ 7 bilhões

  • Valores de 2009.
** R$ 25,6 bilhões. Câmbio de 6 de fevereiro de 2014.

Estrada de ‘ouro e caviar’

Desde 2010, Sochi vem recebendo investimentos para transformar o balneário de veraneio russo – onde a média histórica das mínimas nunca fica abaixo de quatro graus – na meca dos esportes de inverno.

Em um raio de poucos metros, próximo à orla do Mar Negro, foram construídas duas arenas de hóquei, uma de curling e dois estádios com rinques de patinação. As competições de esqui acontecerão nas montanhas que cercam o balneário.

Um dos maiores estádios dos jogos – o Fisht – tem capacidade para 40 mil pessoas e sequer vai abrigar eventos esportivos. Ele será usado em apenas duas ocasiões: para as cerimônias de abertura e encerramento.

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Mas os estádios nem são os itens mais caros do orçamento. As obras para construção de uma estrada e uma ferrovia de 28 quilômetros entre o aeroporto local e a região de Krasnaya Polyana, onde também haverá competições, custaram US$ 8,7 bilhões.

Formatos alternativos

Esse valor é mais que o orçamento total da Olimpíada de Inverno anterior, em Vancouver, segundo a Fundação Anti-Corrupção, uma ONG de Moscou que faz ativismo contra os gastos dos Jogos. Segundo o site sochi.fbk.info, mantido pela entidade, o governo russo entrou com 54% do total de recursos.

O diretor executivo da Fundação, Vladimir Ashurkov, disse à BBC Brasil que os custos dos estádios em Sochi são de 1,5 a 2,5 vezes maiores do que o normal – ao comparar as obras das Olimpíadas de Inverno com outros estádios.

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“Nós acreditamos que os grandes motivos por trás do aumento dos gastos são a corrupção”, diz Ashurkov.

O político de oposição Boris Nemtsov, que virou uma espécie de porta-voz contra os gastos nos Jogos, disse a uma televisão russa que a estrada poderia ter sido pavimentada com “cinco milhões de toneladas de ouro ou caviar, que o preço da obra teria sido o mesmo”.

Os ativistas e a oposição também acusam o governo russo de favorecer os aliados do presidente Vladimir Putin. As empresas de um amigo de adolescência de Putin, Arkady Rotenberg, receberam US$ 7,4 bilhões em contratos – mais da metade de todo o orçamento dos Jogos do Rio.

‘Enviado de Deus’

Rotenberg nega ter se beneficiado de sua relação com Putin – a quem chamou de “um enviado de Deus ao nosso país”, em recente entrevista a um jornal britânico.

Uma auditoria feita pelo próprio governo em 2012 apurou que mais de meio bilhão de dólares em gastos seriam “fora do razoável”. Putin foi à televisão para dizer que o aumento nos gastos aconteceu apenas por conta de erros de estimativa dos investidores, e não por má-fé.

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Competições de esqui acontecerão em montanhas que cercam o balneário do Mar Negro

“Se alguém tem essa informação (de que houve corrupção), por favor nos mostre. Mas até agora, nós não vimos nada além de especulações”, disse o presidente.

Os organizadores dos Jogos também se defendem das acusações de gastos excessivos e favorecimento. O diretor do Comitê Organizador, Dmitry Chernyshenko, disse à BBC que o orçamento de US$ 50 bilhões inclui obras que seriam feitas mesmo no caso de Sochi não ter sido escolhida a sede dos Jogos.

Sobre os contratos com Rotenberg, Chernyshenko afirma que “não está na melhor posição para avaliar a eficiência da licitação, mas elas foram feitas de forma aberta e transparente”.

Ele diz que, a exemplo do que ocorreu com os Jogos de Pequim de 2008 – que, com orçamento de US$ 43 bilhões, foram os mais caros daquela época – a Rússia quer usar a Olimpíada para apresentar uma nova imagem do país ao mundo.

O governo russo justifica os altos gastos dizendo que quer projetar internacionalmente uma imagem positiva do país – de vigor econômico e prosperidade.

“Nós queremos contar ao mundo a história da nova e moderna Rússia”, disse ele.

Russian President Vladimir Putin (R) tri

Turismo

Rússia quer deixar em Sochi um legado de esportes e turismo

O governo russo diz também querer manter um legado vivo de turismo e esportes na cidade. Em outubro, Sochi abrigará o primeiro GP da Rússia de Fórmula 1 da história.

O estádio Fisht está nos planos das autoridades para a Copa do Mundo de 2018, que também será disputada na Rússia. Para este torneio, o orçamento inicial previsto na candidatura já duplicou, e está atualmente em US$ 19 bilhões – quase o dobro do gasto previsto para o Brasil em 2014.

O diretor-executivo da Fundação Anti-Corrupção acredita que o mesmo caso – de gastos excessivos e corrupção – se repetirá na Copa.

Presentation of uniforms for the Russian national Olympic team for the upcoming 2014 Winter Olympic Games in Sochi

“Com metade do dinheiro gasto em Sochi, US$ 25 bilhões, já seria possível fazer um evento fabuloso, que é o que os russos querem ver. A outra metade poderia ter sido gasta em projetos de desenvolvimento social”, disse ele à BBC Brasil.

“Treze milhões de pessoas não têm água quente em casa. Dez milhões não têm acesso a saneamento.”

Fotos e Fonte: BBC Brasil/Daniel Gallas

 

Como seria 2014, há 50 anos atrás

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Como Isaac Asimov previu que seria 2014, 50 anos atrás

Em 1964, durante a Feira Mundial de Nova Iorque, o New York Times convidou o escritor de ficção científica e professor de bioquímica Isaac Asimov a fazer previsões de como seria o mundo 50 anos depois, ou seja, este ano. Asimov escreveu mais de 500 trabalhos, entre romances, contos, teses e artigos e sempre se caracterizou por fazer projeções acuradas sobre o futuro. As previsões do escritor, que morreu em 1991, são surpreendentes.

Cozinha

Cozinha

Asimov prevê que os equipamentos de culinária pouparão a humanidade de fazer trabalhos tediosos. “As cozinhas estão equipadas para fazer “auto-refeições”. “Almoços e jantares serão feitos com comidas semi-preparadas, que poderão ser conservadas em freezer. Em 2014, as cozinhas terão equipamentos capazes de preparar uma refeição individual em alguns poucos segundos”.  Só faltou mesmo ele usar a palavra “microondas”.

Computadores

O escritor previu um mundo repleto de computadores capazes de fazer as mais complexas tarefas. “Em 2014,  haverá mini computadores instalados em robôs”, escreve ele, no que parece ser uma alusão aos chips. E garantiu que será possível fazer traduções com uma dessas máquinas, como se previsse a existência do Google Translator.

Comunicação

Comunicação

As ligações telefônicas terão imagem e voz, garantiu Asimov em seu texto. “As telas serão usadas não apenas para ver pessoas, mas também para estudar documentos e fotos e ler livros”. E prevê que satélites em órbita tornarão possível fazer conexões telefônicas para qualquer lugar da Terra e até mesmo “saber o clima na Antártica”. Mas em Terra haverá outras soluções. “A conexão terá que ser feita em tubos de plástico, para evitar a interferência atmosférica”, escreve ele, como se já conhecesse a fibra ótica.

Cinema

Asimov previu que em 2014 o cinema seria apresentando em 3-D, mas garantiu que algumas coisas nunca mudariam: “Continuarão a existir filas de três horas para ver o filme”.

Energia

energia

Ele previu que já existiriam algumas usinas experimentais produzindo energia com a fusão nuclear. Errou. Mas acertou quando vaticinou a existência de baterias recarregáveis para alimentar muitos aparelhos elétricos de nossa vida cotidiana. Mais ainda: “Uma vez usadas, as baterias só poderão ser recolhidas por agentes autorizados pelos fabricantes” — o que deveria acontecer, mas nem sempre acontece.

Veículos

Veículos

Asimov erra feio nas suas previsões relacionadas ao transporte.

Ele acreditou que carros e caminhões pudessem circular sem encostar no chão ou água, deslizando a uma altura de “um ou dois metros”. E que não haveria mais necessidade de construir pontes, “já que os carros seriam capazes de circular sobre as águas, mas serão desencorajados a fazer isso pelas autoridades”.

Marte

Marte

Para o escritor, em 2014 o homem já terá chegado a Marte com espaçonaves não tripuladas, embora “já estivesse sendo planejada uma expedição com pessoas e até a formação de uma colônia marciana”. O que nos faz lembrar da proposta pública de uma viagem a Marte só de ida, feita recentemente, para formar a primeira colônia no planeta.

Televisão

Asimov cita a provável existência de “televisões de parede”, como se pudesse prever as telas planas, mas acredita que os aparelhos serão substituídos por cubos capazes de fazer transmissões em 3-D, visíveis de qualquer ângulo.

População

População

O escritor previu que a população mundial seria de 6,5 bilhões em 2014 (já passou dos 7 bilhões) e que áreas desérticas e geladas seriam ocupadas por cidades — o que não é exatamente errado. Mas preconizou, também, a má divisão de renda: “Uma grande parte da humanidade não terá acesso à tecnologia existente e, embora melhor do que hoje, estará muito defasada em relação às populações mais privilegiados do mundo. Nesse sentido, andaremos para trás”, escreve ele.

Comida

“Em 2014 será comum a ‘carne falsa’, feita com vegetais, e que não será exatamente ruim, mas haverá muita resistência a essa inovação”, escreve Asimov, referindo-se provavelmente aos hambúrgueres de soja.

Expectativa de vida

Expectativa de vida

O escritor preconizou problemas devido à super população do planeta, atribuindo-a aos avanços da medicina: “O uso de aparelhos capazes de substituir o coração e outros órgãos vai elevar a expectativa de vida, em algumas partes do planeta, a 85 anos de idade”. A média mundial subiu de 52 anos em 1964 para 70 anos em 2012. Em alguns países, como Japão, Suíça e Austrália, já está em 82 anos.

Escola

“As escolas do futuro”, escreve Asimov, “apresentarão aulas em circuitos fechados de TV e todos os alunos aprenderão os fundamentos da tecnologia dos computadores”.  O que ele não previu foi a possibilidade de os alunos ensinarem os professores quando se trata de uso de computadores — como, aliás, ocorre em algumas escolas públicas brasileiras.

Trabalho

Trabalho

Asimov previu uma população entediada, como sinal de uma doença que “se alastra a cada ano, aumentando de intensidade, o que terá consequência mentais, emocionais e sociais”. Depressão?  “Ouso dizer”, prossegue ele, “que a psiquiatria será a especialidade médica mais importante em 2014. Aqueles poucos que puderem se envolver em trabalhos mais criativos formarão a elite da humanidade”.

Fotos: La Vetrina Di Eros in Becheca/Fleur de Lune/La Dama Nera/My Sweetness Black&White

Fonte: Jornal GGN/Diário do Centro do Mundo/Roberto Amado

Dados do internauta revoluciona publicidade

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Enquanto a espionagem de dados pelo governo norte-americano provoca protestos, as empresas aperfeiçoam as técnicas que lhes permitem seguir os internautas. Elas são ajudadas pela multiplicação de informações pessoais na rede. Assim, escapar das mensagens publicitárias torna-se uma corrida com obstáculos.

“Uma Guinness, John?”, “Estressado, John Anderton? Precisando de umas férias?”. Interpretado por Tom Cruise, o herói de Minority Report não consegue dar um passo sem ser assediado por mensagens publicitárias personalizadas brilhando em telas à sua frente. A ação do filme se passa em 2054. Seu diretor, Steven Spielberg, não deve ter imaginado, durante as filmagens, em 2001, que muitas das invenções encenadas na obra seriam realidade dentro de dez anos. Objetos conectados à internet, telas sensíveis ao toque, interfaces gestuais, reconhecimento de voz, jornais eletrônicos atualizados em tempo real,outdoors digitais capazes de reconhecer o espectador pelo rastreamento do olhar (eye tracking)… Todas essas tecnologias já são vividas cotidianamente e fazem a indústria da publicidade se reinventar.

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O Google promete comercializar no próximo ano o Google Glass, óculos que permitem consultar uma página web ou clicar em e-mails apenas inclinando a cabeça. Com uma conexão sem fio, um indivíduo poderá entrar num aeroporto e ver no vidro de seus óculos não apenas a indicação do caminho para a área de check-in, mas também o número de seu voo e a hora do embarque. O outro lado dessa façanha tecnológica é fácil de imaginar: nada daquilo que você vai ver poderá escapar ao gigante californiano – o que você faz, os lugares que frequenta, os produtos que consome, as pessoas que encontra…

Houve um tempo em que a humanidade consumidora se dividia em tantos alvos quanto fosse o público a seduzir através dos meios de comunicação de massa. Esse tempo passou.1 Servidores utilizados para fins publicitários agora identificam nossos interesses, nossas ligações em redes sociais, nossos gostos culturais, os lugares que visitamos ou onde fazemos compras. Em suma, mesmo que não se trate jamais de cadastrar oficialmente uma população, a segmentação pode ser tão precisa que, mesmo sem conhecê-lo pelo nome, uma marca é capaz de saber tudo sobre um consumidor.

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Como constata Hervé Bazot, presidente da associação UFC-Que Choisir, estamos observando uma “captação tentacular, sem transparência, e uma utilização ao infinito de dados pessoais”.2 Porém, na França, a Lei Informática e Liberdades, de 1978, dispõe a garantia da transparência e da informação prévia a qualquer pessoa que seja cadastrada. E se os dados vierem a ser arquivados, há um limite de tempo para se manterem armazenados.

Medo de uma legislação muito dura

Mas é impossível saber por quanto tempo Google, Facebook, Yahoo e outros ficam com os nossos dados. A União Europeia aprovou uma norma, em 1995, para garantir a proteção das informações de caráter pessoal, reformulando a exigência em 2009, por ocasião de outra norma chamada “Pacote Telecom” – retranscrita na França por um regulamento de 24 de agosto de 2011; mas ela luta para conseguir aplicar um texto que deve ser transposto em direito em cada um dos 28 Estados-membros. Então, em janeiro de 2012, Bruxelas aprovou um regulamento de aplicação direta para evitar as múltiplas interpretações.

Enquanto os gigantes da internet se defendem argumentando que dispõem de dados anônimos, a Comissão Europeia tende a considerar que o IP – sigla para Internet Protocol, ou seja, a identidade do computador – é um elemento que conduz ao estabelecimento de dados pessoais. Portanto o consumidor deve estar ciente de que tais dados são coletados, por quanto tempo e aprovar sua utilização para fins publicitários. Esse texto regulamentar, que deve ser apresentado ao Parlamento Europeu no final de 2013, já resultou na diligente apresentação de 4 mil emendas pelos lobistas. Ele deverá ser votado na Comissão até a metade de 2014, para ser aplicado em 2016.

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Hoje, apenas o fornecimento de dados de geolocalização passa por um pedido de acordo prévio por parte dos fornecedores de aplicativos móveis. Mas o mobinauta hesita cada vez menos em se deixar localizar, uma vez que esse é o único meio de acessar os serviços de proximidade (“perto de mim”), como encontrar um restaurante, um terminal de bicicletas, uma estação de metrô etc. E a concordância do usuário nem sempre é solicitada. Segundo um estudo realizado pela Comissão Nacional de Informática e Liberdades (Cnil) e pelo Instituto de Pesquisa em Informática Aplicada (Inria), divulgado em abril de 2013, 31% dos 189 aplicativos testados por três meses no i-Phone avançam automaticamente para a geolocalização do mobinauta, e 8% para seu catálogo de endereços. A Apple torna obrigatória a presença de um identificador com fins de segmentação publicitária para qualquer usuário do sistema operacional IOS 6. O código é utilizado para armazenar os hábitos de navegação, na forma de cookies.

Cookies? Esses pequenos arquivos-robôs que acompanham nossa navegação na web tornam a publicidade na internet particularmente eficaz. De acordo com o relatório da senadora francesa Catherine Morin Desailly, contam-se em média trezentos deles armazenados em um navegador da internet (Explorer, Safari, Mozilla…).

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Em março de 2013, o grupo das Cnils europeias, chamado G29, publicou recomendações a fim de limitar ao mínimo estrito o acesso aos dados pessoais dos usuários. Ele recomenda que se usem identificadores temporários e, especialmente, que os usuários sejam informados sobre os dados coletados, ou ainda que se peça seu consentimento antes de realizar qualquer rastreamento publicitário. Essa opção, conhecida como opt-in, que permite ao usuário o controle real dos dados que fornece, é rejeitada pelo lobby da publicidade on-line. Este, representado na Europa pelo Internet Advertising Bureau (IAB), prefere o opt-out, que implica um procedimento ativo de saída do internauta. Assim, o IAB criou a plataforma Youronlinechoices.eu, que envia o usuário para uma página de desativação de arquivos espiões. Para acessá-la, o internauta é convidado a clicar em uma aba na qual se propõe – na cor verde – “aceitar todas as empresas” enviandocookiesou – em vermelho – “rejeitar todas as empresas”.

Mesmo antes de você clicar na opção em vermelho, o Google já passa a se comunicar apenas em inglês e o eBay adverte que “anúncios continuarão a aparecer, mas poderão ser menos pertinentes”. Uma vez ativado o fatídico botão, o Yahoo explica que “a ferramenta não conseguiu conectar-se a todas as empresas” e que o problema é provavelmente causado por “pluginsde bloqueio publicitário do tipo AdBlock Plus3 [que] podem inviabilizar as desativações”.

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Já o MSN, portal da Microsoft, prefere confundir o internauta com a aba “Escolher seus anúncios”, enviando-o para uma área “Saber mais”, que contém uma declaração de confidencialidade. Lá, somos lembrados de que os cookiesservem para “ativar algumas funcionalidades de pesquisa”. E embora seja oferecido um link para “Nossa página de recusa de anúncios”, o internauta volta para a página inicial, após um percurso que o direcionou de “Outras coisas que você deve saber” para “Mostrar anúncios” e em seguida a uma “Página de saída”, levando a um impasse.

É necessário então um controle sobre os navegadores? A Digital Advertising Alliance – federação de agências de segmentação, anunciantes e meios de comunicação norte-americanos, como TimeThe Washington Poste o grupo Conde Nast, que representa 90% da publicidade segmentada na internet nos Estados Unidos – prega a autorregulação. No final de 2012, seus quatrocentos membros comprometeram-se a não rastrear os internautas que pedissem isso em seu navegador. O Mozilla, que opera no modelo “livre”, anunciou em fevereiro que iria estabelecer como padrão o bloqueio de cookiescomerciais no navegador Firefox e foi o primeiro a propor a “Navegação privativa” (“Do not track”). Em seu rastro vieram o Internet Explorer (Microsoft), o Safari (Apple) e finalmente o Chrome (Google), adotando dispositivos similares. É preciso dizer que a simples menção pelo governo Obama, em 2012, de um projeto de “Carta para a proteção dos dados dos consumidores”, antes de ser votada uma lei no Congresso, levou os atores da publicidade a dar mostras de boa vontade para evitar uma legislação mais dura.

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Mas essas soluções estão longe de ser perfeitas. Primeiro porque as empresas de segmentação publicitária conseguem obter informações de navegação sem o conhecimento do internauta, por meio do “cache”, memória informática que armazena temporariamente cópias de dados para reduzir o tempo de acesso ao conteúdo. Isso não é possível em qualquer lugar – especialmente não no Firefox –, mas no Safari é.

Quanto ao sistema de “navegação privativa”, a Cnil destacou que ele só estaria em conformidade com o direito de confidencialidade reconhecido pela norma europeia transposta na França no final de 2011 se fosse habilitado como padrão nos computadores. Um caminho categoricamente recusado pelos gigantes da publicidade, que muitas vezes são também os fabricantes norte-americanos desses programas de navegação. Por ora, continua a oposição entre a Europa que opta pela adesão (opt-in) e os Estados Unidos que optam pela saída (opt-out).

Um anúncio de máquina de lavar roupas invadiu todos os sites que você visita desde que fez uma pesquisa para saber o preço dos modelos existentes? Esse é um sinal de que você está sendo rastreado por meio dos famosos cookies. Mas, para se adaptar aos usuários resistentes que ainda apagam cookies e aplicativos móveis que não os utilizam, alguns integrantes do setor já estão no pós-cookies. Eles apostam principalmente na tecnologia de impressão digital, estabelecida com base nos vestígios deixados pelo navegador ou pelo próprio aparelho. É o que preocupa a Criteo, bem-sucedida companhia francesa que pretende entrar no Nasdaq: ela segmenta os internautas a partir dos cookies, que, com os novos métodos de rastreamento, poderiam ser rejeitados, no futuro, pelo navegador Chrome do Google.4

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O Google, aliás, tornou-se um especialista de segmentação em função do contexto editorial, por meio do programa AdSense: ele envia anúncios baseando-se na temática da página da web visitada. Ou por meio da comercialização de links patrocinados em resposta a pesquisas no programa de busca, ou ainda em função de palavras encontradas nas contas do Gmail – por exemplo, um anúncio sobre “Férias no Marrocos”, se um e-mail em sua caixa postal menciona esse país.

A essa segmentação contextual e comportamental soma-se uma nova dimensão, fundada na interação social. Ainda menos transparente que o Google sobre o uso de dados pessoais, o Facebook explora informações fornecidas voluntariamente por seus membros aos “amigos”. Faixa etária, cidade, interesses, profissão… A isso se acrescentam os “amigos” geolocalizáveis dos usuários da rede social. “Nossos catálogos de endereços são totalmente varridos pelo Facebook por meio de nosso telefone celular ou e-mail, e uma identificação biométrica padrão permite reconhecer logos e fotos de rostos sem que o contribuinte tenha dado permissão explícita”, diz a associação Internet sem Fronteiras (AFP, 18 maio 2012).

Promoção por um “like”

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Em 2007, o Facebook foi obrigado a desculpar-se pelo programa Beacon, que alertava a comunidade de “amigos” sempre que um dos membros fazia uma compra on-line. Hoje, a publicidade dá lugar à recomendação “social”. O internauta que clica em “Curti” e vira fã de uma marca compartilha automaticamente a notícia com toda a sua rede. “A exposição a uma marca ‘curtida’ por um ou mais amigos quadruplica a intenção de compra dos usuários expostos a esses anúncios”, indica Matthieu de Lesseux, presidente da DDB Paris (Challenges, 5 abr. 2012). O anúncio aparece no feedde notícias (linha do tempo), entre os elementos publicados pelos “amigos”. O Twitter também insere mensagens patrocinadas nessa área reservada normalmente para as contas selecionadas pelo usuário. Um anúncio qualificado de “nativo”, já que nasce no mesmo fluxo de informações.

A comunidade “amiga” pode saber o que o usuário está ouvindo, por meio do serviço de música on-line Deezer; o que ele lê, graças a parcerias com jornais; e o que deseja comprar. “Pouquíssimos usuários compreendem totalmente – e muito menos controlam – a exploração dos dados utilizados para impulsionar a atividade publicitária do Facebook”, destaca Jeff Chester, diretor do Centro para a Democracia Digital (AFP, 1o fev. 2012). Basta clicar no botão “Facebook Connect” para que a rede social forneça a terceiros as informações sobre a identidade de um cliente. Os termos de uso da rede, que muda regularmente seus parâmetros de confidencialidade, são geralmente ilegíveis. Seus data centers, aliás, os parques de servidores que armazenam esses dados, também são de propriedade da gigante californiana, escapando a qualquer controle das autoridades estrangeiras.5

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Poderíamos pensar que os mastodontes da internet que vivem da publicidade não nos custam nada. Isso não é verdade: eles nos custam nossos dados. Um valor total estimado em 315 bilhões de euros no mundo em 2011, ou seja, 600 euros por indivíduo, de acordo com o Boston Consulting Group. Uma riqueza fornecida pelos próprios internautas, que se tornam “quase funcionários, voluntários, das empresas”, como escrevem Nicolas Colin e Pierre Collin em um relatório sobre a tributação na era digital.6Localizados em terras de asilo europeias, subtraídas da economia real por meio de sistemas de evasão em paraísos fiscais, esses gigantes praticamente não pagam impostos sobre as empresas, ou escapam da taxa sobre valor agregado (TVA). Para um montante de 2,5 bilhões a 3 bilhões de euros de volume de negócios na França, as empresas Google, Apple, Facebook e Amazon pagam apenas 4 milhões de euros, “quando poderiam pagar 500 milhões de euros, se o sistema tributário lhes fosse plenamente aplicado”, de acordo com um parecer de 14 de fevereiro de 2012 do Conselho Nacional do Digital.7

Os grandes atores norte-americanos da internet desestabilizam o mercado publicitário. Enquanto suas receitas explodem, as dos meios de comunicação tradicionais não param de cair. Entre 2007 e 2012, na França, o mercado publicitário passou de 4,8 bilhões para 3,2 bilhões de euros para a imprensa, e de 3,6 bilhões para 3,3 bilhões de euros para a televisão. Mas as mídias tradicionais financiam a criação de conteúdo: obras de ficção, filmes cinematográficos, documentários, entrevistas, reportagens… Do 1,8 bilhão de euros em receitas de publicidade on-line – incluídos os links patrocinados –, só o Google captou cerca de 1,5 bilhão de euros na França.

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Espaços leiloados

A televisão tenta revidar, criando seus próprios serviços de publicidade individualizados. Na França, aplicativos para segunda tela (smartphones, tablets…) são usados para coletar informações sobre o telespectador-internauta, a pretexto de concursos. Assim é possível enviar mensagens ultrassegmentadas e contornar regulamentos que proíbem publicidade televisiva de setores como álcool, cinema ou edição. No Reino Unido, a B Sky B, operadora de televisão via satélite que pertence a Rupert Murdoch, começou em agosto campanhas publicitárias que segmentam os telespectadores assinantes em função da rua onde moram, da composição de sua casa ou de seus programas favoritos.8 Após um acordo, em setembro e outubro de 2013, com as mídias norte-americana (CNN, ABC, NBC), britânica (B Sky B) e francesa (TF1 e Canal Plus), o Facebook aceitou entregar às cadeias de televisão dados sobre idade, sexo e localização de quem comenta seus programas na rede social. Uma ferramenta interessante para refinar a segmentação publicitária e os assuntos que chamam a atenção.

Diante dessa onda dos sacrossantos data,9 os meios de comunicação lutam para defender o valor de seu espaço publicitário não apenas no suporte tradicional, mas agora também na net. Os formatos clássicos de mídia em sites, como os banners de publicidade, são menos visados. Com seus preços comprometidos pela gratuidade do conteúdo disponível na internet, eles também são ameaçados por plataformas de distribuição digital de baixo custo que reúnem diversos sites, blogs ou espaços sociais e não valorizam o ambiente editorial, mesmo que ele seja de mais qualidade.

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Essas posições de mercado são geridas pelos gigantes da internet − Microsoft, Facebook e Yahoo, por exemplo −, mas também por atores especializados. Para enfrentá-los, fato único no mundo, os meios de comunicação franceses decidiram em agosto de 2012 associar-se para montar duas plataformas automatizadas similares, chamadas ad exchanges, que colocam em relação direta compradores e vendedores na internet: La Place Média e Audience Square. Na primeira, os grupos Lagardère, TF1, Le Figaro, Amaury, France Télévisions e Marie Claire; na outra, M6, RTL, Prisma, Le Monde, Le Nouvel Observateur, Le Point e Mondadori. O objetivo é o mesmo: reunir as páginas não vendidas na internet e oferecê-las em massa ao anunciante que pagar mais. Um trabalho que exige novas habilidades das agências de publicidade: data scientist (“especialistas em dados”), arquiteto de banco de dados etc.

Assim, os meios de comunicação entraram, sob o modelo do Google e sua rede de comercialização de palavras-chave (AdWords),10 em um mundo de lances em tempo real (real time bidding) que funciona como a Bolsa, por meio de corretores on-line (trading desk). Um mundo em que o número de transações é dez vezes maior que o da Bolsa de Valores de Nova York. Em 120 milésimos de segundo, a partir do momento em que um internauta visita uma página da web, um espaço publicitário vai a leilão, e o maior lance obtém a alocação do anúncio. Esse tipo de comercialização baseado num algoritmo de leilão representa quase 15% da compra de publicidade on-line na França e 30% nos Estados Unidos.

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O paradoxo é que esse mercado, fundado na pertinência de um algoritmo, compromete o ofício tradicional das agências de publicidade, bem como de seus intermediários em consultoria e compra de espaço. De agora em diante, nada mais atrapalha a conexão quase direta entre um anunciante e sua audiência: o trabalho de segmentação já não requer a expertise dos agentes, mas se impõe automaticamente graças ao tratamento dos dados dos internautas e ao poder de cálculo das plataformas de leilão. Quem detém os dados na fonte pode vendê-los.

Para se adaptarem, as agências saídasdos grupos Publicis, Havas, WPP e Omnicom também desenvolveram suas próprias atividades detrading desk, mesmo que isso fira a Lei Sapin, de 1993, a qual proíbe que um vendedor seja também comprador de espaço publicitário. Em julho, o próprio Maurice Lévy, presidente da Publicis, anunciou a fusão de seu grupo com a norte-americana Omnicom, a fim de melhor responder à “explosão dosbig data e da análise em tempo real” e “digerir bilhões de dados para levar uma mensagem relevante a uma audiência muito restrita”.11

Quem vai sair ganhando desse jogo? O leilão do Google AdWords diz respeito a um recurso raro – a palavra cobiçada pelos anunciantes –, enquanto o dos espaços publicitários remanescentes das plataformas está focado num produto quase infinito, o que só pode puxar para baixo o preço da publicidade na internet. Nesse jogo, é ainda e sempre o Google que sai ganhando, com os ad exchanges das mídias constituindo apenas uma resposta global defensiva, sem garantia sobre os rendimentos. Na França, os investimentos publicitários gerados pelos motores de busca, de 1,2 bilhão de euros, são cerca do dobro daqueles da publicidade on-line clássica.

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Em 2020, de acordo com um estudo recente do grupo sueco Ericsson, 50 bilhões de objetos estarão conectados no mundo (La Tribune, 22 set. 2013). Essa onda que nos afoga e que vai permitir que sejamos seguidos nos menores recônditos de nossa intimidade parece ainda mais incontrolável na medida em que traz a inovação digital, novo pilar do crescimento capitalista. Mas ela só é alimentada por nossa própria tendência à “extimidade”, encorajada todos os dias nas redes sociais. “O maior perigo”, resume o blogueiro norte-americano Andrew Queen, “somos nós mesmos, os ‘Little Brothers’ que formam o ‘Big Brother’ do século XXI.”12 

BOX:

No prisma da NSA

“Um bilhão de transações registradas, 7 milhões de números de celular, 20 milhões de e-mails, 150 critérios de qualificação…” Essa relação para um “banco central de dados” não é do Prism, o programa de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana, mas da Mediaprism, filial do grupo La Poste. “Podemos saber o que você comprou em um segundo”, afirma a presidente Frédérique Agnès (Stratégies, 27 jun. 2013).

a13Do conhecimento dos hábitos de consumo à vigilância generalizada dos consumidores, é um passo. Nos Estados Unidos, o Prism, introduzido em 2007, contou com o apoio dos servidores de nove gigantes norte-americanas da internet, incluindo Google, Yahoo, Facebook, Microsoft e Apple, para acessar os dados de cidadãos estrangeiros. A agência de espionagem teria tido acesso direto às bases de dados dessas empresas.(M.B.)

Fotos: L’ombre et la Lumière/La Vetrina di Eros in Becheca/Chuchotements et Plaisir des Yeux

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil/Marie Bénilde.

1 Ler Ariane Krol e Jacques Nantel, “Pesca na banheira”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2013.

2 Agence France-Presse (AFP), 27 jun. 2013.

3 Extensão que pode ser baixada em alguns navegadores para bloquear anúncios.

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4 Alistair Barr, “Google may ditch ‘cookies’ as online ad tracker” [Google pode abandonar cookies com rastreador de anúncios on-line], USA Today, McLean, 17 set. 2013.

5 Ler Hervé Le Crosnier, “A nuvem da informação”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2008.

6 Nicolas Colin e Pierre Collin, “Rapport sur la fiscalité du secteur numérique” [Relatório sobre a tributação do setor digital], Ministério da Economia e Finanças, Paris, 18 jan. 2013. Disponível em: .

7 Ibidem, p.65.

8 Robert Budden, “A TV that knows who you are” [Uma TV que sabe quem você é], Financial Times, Londres, 31 jan. 2013.

9 Ler Kenneth Cukier e Viktor Mayer-Schönberger, “Mise en données du monde, le déluge numérique” [A transformação do mundo em dados, o dilúvio digital], Le Monde Diplomatique, jul. 2013.

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10 Ler Frédéric Kaplan, “Quando as palavras valem ouro”, Le Monde Diplomatique Brasil, nov. 2011.

11 International Herald Tribune, Neuilly-sur-Seine, 29 jul. 2013.

12 AFP, 24 jan. 2012.

O desvio do nosso dinheiro

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As eleições nos custam R$ 2 bilhões, é até pouca coisa. Mas a manipulação permitida nos custa centenas de bilhões por meio dos mecanismos que se tornaram legais ou de difícil controle judiciário. A deformação do sistema tributário desonera os muito ricos e fragiliza o setor público, reproduzindo a desigualdade

O Brasil não é pobre. Mas seus recursos são frequentemente mal utilizados, ou desviados, vazando pelas numerosas brechas, legais ou ilegais, quando poderiam ser produtivos. E não se trata de, como sempre, culpar o governo: são articulações públicas e privadas que deformam o processo decisório. Seguir o dinheiro ajuda a entender a dinâmica tanto deste como das deformações políticas. Cada um de nós conhece alguns aspectos e suspeita de outros. Mas vale a pena descrever os principais mecanismos e ver como se articulam.

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A compra das eleições

Os grandes vazamentos não se dão, de forma geral, por meios ilegais, pois são praticados por grupos suficientemente poderosos para adaptar a legalidade aos seus interesses. O ponto de partida, portanto, está na apropriação da máquina que faz as leis. No Brasil, a lei que libera o financiamento das campanhas por interesses privados é de 1997.1 Quanto mais cara é a campanha, mais o processo é dominado por grandes financiamentos corporativos e mais a política se vê colonizada. O resultado é a erosão da democracia e custos muito mais elevados para todos, já que os gastos com as campanhas são repassados para o público por meio dos preços. Nos Estados Unidos, onde um sistema semelhante foi instalado em 2010, Hazel Henderson comenta: “Temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”.

Os grupos econômicos podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral).”2

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O custo das campanhas é até, em termos relativos, um mal menor se comparado aos custos de uma política estruturalmente deformada. Na realidade, é um desencadeador de deformações. A representação desequilibrada gerou um sistema tributário que onera proporcionalmente os mais pobres, levando à reprodução da desigualdade. Criou-se também uma cultura de superfaturamento de obras que a colusão entre políticos e grandes empreiteiras permite. Mais grave ainda, deforma-se o uso final dos recursos, por exemplo, com priorização do transporte individual nas grandes cidades ou do transporte rodoviário para transporte de carga, e assim por diante. E, em termos políticos, o sistema corrói o processo democrático ao gerar uma perda de confiança popular na política em geral.

O sistema gerou sua própria legalidade. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito − o direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Ético mesmo é reformular o sistema e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas.

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A armadilha da dívida pública

Acostumamo-nos a que tipicamente 5% de nosso PIB seja desviado via governo para intermediários financeiros, sem que produzam nada. Pelo contrário, desviam-se os recursos do investimento produtivo para a aplicação financeira. Para cobrir os juros sobre a dívida, o governo FHC elevou a carga tributária de 26% para 32% do PIB. De algum lugar tinha de vir o dinheiro.

No momento em que Lula assumiu o governo, em 2003, a taxa Selic estava em 24,5%. Em junho de 2002, a dívida pública tinha chegado a 60% do PIB; hoje está mais próxima de 35%, e os juros pagos sobre a dívida baixaram para menos de 10%, mas o estoque da dívida é maior. Foi fácil abrir a torneira, fechá-la é muito mais complicado. Em comparação, a taxa oficial de juros praticada internacionalmente é da ordem de 0,5% a 2%.

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A partir do governo Lula, o sistema foi sendo gradualmente controlado. Ainda assim, é uma transferência de dinheiro público para não produtores que se conta, como ordem de grandeza, em algo como R$ 150 bilhões por ano. É um sistema legal conseguido por meio do apoio político comprado com dinheiro corporativo e repassado ao consumidor nos preços que paga. Para os grupos que vivem de renda financeira, e não de produção, em vez de ir contra a lei, é mais prático fazer a lei ir ao seu encontro.

No braço de ferro que hoje se desenrola, a cada vez que se baixa meio ponto da Selic, o mundo financeiro grita na mídia, todos ameaçam com a inflação, pedem “responsabilidade” ao governo, conseguindo inclusive reverter o processo de baixa. A evolução é resumida por Amir Khair: “A dívida líquida do setor público foi marcadamente influenciada pela Selic. No início do governo FHC estava em 28% do PIB e, mesmo com a megavenda de patrimônio público com privatizações, ao final do governo chegou a 60,4%. A elevada Selic foi a responsável por isso. No final do governo Lula, tinha baixado para 39,2% e em julho estava em 34,9%. Caso a Selic continue caindo, é capaz que ao final do governo Dilma seja possível retornar próximo da que estava no início do governo FHC”.3

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Uma monumental transferência de recursos públicos para rentistas que, além de nos custar muito dinheiro, desobriga os bancos de fazer investimentos produtivos que gerariam produto e emprego. É tão mais simples aplicar nos títulos, liquidez total, risco zero. Realizar investimentos produtivos, financiando, por exemplo, uma fábrica de sapatos, envolve análise de projetos, acompanhamento, enfim, atividades que vão além de aplicações financeiras.

A manipulação dos juros comerciais

Os intermediários financeiros e rentistas não se contentam com a Selic, taxa de juros oficial sobre a dívida pública. Recorrem a um segundo mecanismo, que é a fixação de elevadas taxas de juros ao tomador final por bancos comerciais, mecanismo diferente da taxa Selic, tanto assim é que a Selic baixou radicalmente diante dos 25-30% da fase FHC para os 8,5% atuais, sem que houvesse redução significativa dos juros dos bancos comerciais.

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Naturalmente, os bancos comerciais, como entidades privadas, afirmam que são livres para praticar os juros que quiserem. A coisa não é assim, por uma razão simples: como trabalham com dinheiro do público, e não deles, devem seguir regras definidas pelo Banco Central, e mesmo um banco privado precisa de uma carta-patente que o autorize a funcionar dentro de certas regras. Estas, naturalmente, vão depender da capacidade de pressão política.

Como se trata de dinheiro do público apropriado diretamente pelos intermediários financeiros, sem mediação do governo, poderíamos achar que não é desvio de dinheiro. De certa forma, quando tiram nosso dinheiro sem a ajuda de um político, seria por assim dizer mais limpo. Habilidade de um lado, ingenuidade ou impotência do outro, mas não corrupção. Essencial para nós é que só se podem sustentar no Brasil juros tipicamente dez vezes maiores (dez vezes, não 10% a mais) em relação aos praticados internacionalmente mediante apoio político. E, como durante longo tempo tivemos banqueiros na presidência do Banco Central, montou-se mais um sistema impressionante de legalização do desvio de nosso dinheiro. Essa “ponte” entre o político e o comercial precisa ser explicitada.4

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O artigo 170 de nossa Constituição define como princípios da ordem econômica e financeira, entre outros, a função social da propriedade (III) e a livre concorrência (IV). O artigo 173, no parágrafo 4o, estipula que “a lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros”. O parágrafo 5o é ainda mais explícito: “A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular”. Cartel é crime. Lucro exorbitante sem contribuição correspondente produtiva será “reprimido pela lei” com “punições compatíveis”.

Estudo do Ipea mostra que a taxa real de juros para pessoa física (descontada a inflação) cobrada pelo HSBC no Brasil é de 63,42%; no Reino Unido, é de 6,6% (no mesmo banco, para a mesma linha de crédito). Para o Santander, as cifras correspondentes são 55,74% e 10,81%. Para o Citibank, são 55,74% e 7,28%. O Itaú cobra sólidos 63,5%. Para pessoa jurídica, área vital porque se trataria de fomento a atividades produtivas, a situação é igualmente absurda. O HSBC, por exemplo, cobra 40,36% no Brasil e 7,86 no Reino Unido.5

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No conjunto, trata-se de um desvio de dinheiro da economia real, via uma forma institucional ilegal, que é a “dominação dos mercados, eliminação da concorrência e aumento arbitrário dos lucros” que a Constituição condena em termos inequívocos. Diante dos números, há alguma dúvida quanto à ilegalidade? Não há notícias de julgamento a esse respeito, e sim de muitas denúncias no Procon, Idec e outras instituições, e milhões de pessoas se debatendo em dificuldades. O Serasa-Experian, hoje empresa multinacional, guardiã da moralidade financeira, decreta que brasileiros passam a ter o nome sujo, ou seja, pune quem não consegue pagar os 238% hoje cobrados no cartão, e não quem os cobra.

Os paraísos fiscais

Um dos efeitos indiretos da crise mundial é que há um forte avanço recente no estudo dos grandes grupos econômicos e das grandes fortunas. Aliás, o imenso esforço de comunicação destinado a atribuir a crise financeira mundial ao comportamento irresponsável dos pobres, seja nos Estados Unidos ou na Grécia, é patético. Um estudo que sobressai, de autoria do Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH, na sigla alemã), constatou que 147 corporações, das quais 75% são grupos financeiros, controlam 40% do sistema corporativo mundial. Num círculo um pouco mais aberto, 737 grupos controlam 80%. Nunca houve, na história da humanidade, nada de parecido com esse nível de controle planetário por meio de mecanismos econômicos e financeiros. A apropriação ou no mínimo fragilização das instituições políticas perante esses gigantes torna-se hoje fato comprovado.6

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Corroborando essa pesquisa, e focando inclusive em grande parte os mesmos bancos, temos hoje outra pesquisa de grande porte, liderada por James Henry, ex-economista-chefe da McKinsey, e realizada no quadro da Tax Justice Network. Em termos resumidos, o estoque de recursos aplicados em paraísos fiscais é hoje da ordem de US$ 21 trilhões, um terço do PIB mundial. O Brasil participa generosamente com cerca de US$ 520 bilhões, mais de R$ 1 trilhão, cerca de um quarto do nosso PIB. São dados obtidos por meio de cruzamento de informações dos grandes bancos, do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) da Basileia, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, de bancos centrais e de várias instituições de pesquisa ou de controle. Nada de invenções: trata-se no essencial de juntar os dados de forma organizada, com metodologia clara e transparente, e indicações da relativa segurança ou insegurança dos dados a cada passo. Essa peça informativa fazia muita falta, e passamos agora a ver o que acontece com tanto dinheiro ilegal que resulta das várias formas de corrupção.7

A economia trata da alocação racional de recursos. Aqui há pouca racionalidade, a não ser que olhemos da perspectiva dos que deles se apropriam. As eleições nos custam R$ 2 bilhões, é até pouca coisa. Mas a manipulação permitida nos custa centenas de bilhões por meio dos mecanismos que se tornaram legais ou de difícil controle judiciário. A deformação do sistema tributário desonera os muito ricos e fragiliza o setor público, reproduzindo a desigualdade.

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A irracionalidade das infraestruturas custa bilhões e nos atinge a todos, gerando um país de altos custos. Os cerca de R$ 150 bilhões de juros pagos a rentistas são um desvio radical de dinheiro que poderia ser transformado em investimentos. Os imensos recursos que constituem nossas poupanças depositadas em bancos poderiam servir ao fomento econômico, e não à agiotagem com as taxas de juros praticadas. O escoamento dos recursos gerados para paraísos fiscais, cerca de R$ 1 trilhão acumulados no caso do Brasil, nos priva de recursos necessários ao desenvolvimento, sustenta uma ilegalidade que virou cultura e deforma profundamente tanto o sistema político como o econômico. São as regras do jogo que estão viciadas.

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Fotos: La Dama Nera/ Brunes, Blondes, Rousses
Fone: Le Monde Diplomatique Brasil

Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, e professor titular da PUC-SP. É autor de A reprodução social e Democracia economômica – um passeio pelas teorias (contato http://dowbor.org).

Ilustração: Daniel Kondo

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1 O financiamento está baseado na Lei n. 9.504, de 1997: “‘As doações podem ser provenientes de recursos próprios (do candidato); de pessoas físicas, com limite de 10% do valor que declarou de patrimônio no ano anterior no Imposto de Renda; e de pessoas jurídicas, com limite de 2%, correspondente [à declaração] ao ano anterior’, explicou o juiz Marco Antonio Martin Vargas, assessor da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo”. Citado por Elaine Patricia da Cruz, “Entenda o financiamento de campanha no Brasil”, Exame, São Paulo, 8 jun. 2010.

2 “Pouquíssimos candidatos conseguem se eleger com pouco ou nenhum dinheiro”, comenta Mancuso, que coordena o projeto de pesquisa “Poder econômico na política: a influência de financiadores eleitorais sobre a atuação parlamentar”. Ver mais em Bruna Romão, Agência USP. Disponível em: <http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/investimento-de-empresas-influencia-sucesso-em-eleicoes/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje>.

3 O Estado de S. Paulo, 9 set. 2012.

4 “A corrupção foi frequentemente interpretada de maneira estreita, focando excessivamente o setor público e ignorando o privado. O Banco Mundial tem um approach ainda mais estreito, definindo corrupção como ‘o abuso do serviço público para ganho privado’. Esse foco no setor público como a única arena da corrupção não é apenas arbitrário. É errado e, inclusive, pernicioso.” Tax Justice Network. Disponível em: <www.taxjustice.net/cms/front_content.php?idcat=100>.

5 Ipea, “Transformações na indústria bancária brasileira e o cenário de crise”, Comunicado da Presidência, abr. 2009, p.15. Disponível em: <www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/09_04_07_ComunicaPresi_20_Bancos.pdf>.

6 Para uma análise sumária dos resultados da pesquisa do ETH, ver: <http://dowbor.org/2012/02/a-rede-do-poder-corporativo-mundial-7.html/>.

7 “Uma fração significativa da riqueza financeira privada global – segundo nossas estimativas, pelo menos de US$ 21 trilhões a US$ 32 trilhões em 2010 – foi investida praticamente sem impostos através do buraco negro mundial ainda em expansão de mais de oitenta jurisdições offshore sigilosas. Acreditamos que estes sejam números conservadores. Nessa escala, a economia em paraísos fiscais é grande o suficiente para ter vasto impacto nas estimativas de desigualdade de riqueza e renda, e nas estimativas das rendas nacionais e nos níveis de dívida; e – mais importante – ter um impacto negativo bastante significativo nas bases fiscais nacionais de países key source (ou seja, aqueles que têm visto ao longo do tempo fugas de capital privado não registradas).” Tax Justice Net, p.3. Disponível em: <www.taxjustice.net/cms/front_content.php?idcat=148>.

Um novo inimigo na imprensa

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As mesmas alcunhas de “subversivos”, “baderneiros”, “vândalos”, “terroristas” já foram e seguem sendo repetidas pelos mesmos meios de comunicação para designar militantes que lutaram contra a ditadura, grevistas, sem-terra, sem-teto, vendedores ambulantes, indígenas e moradores de favelas. Hoje, o alvo são Black Blocs

O ano de 2013 vai ficar marcado pelas manifestações iniciadas em junho e que tomaram as ruas de várias capitais brasileiras. Com o devido distanciamento histórico, seu significado e consequências ainda serão objeto de muitos estudos e análises.

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Para perplexidade de muitos, as maiores mobilizações deste ano não foram planejadas por nenhum partido ou sindicato. Por outro lado, as frases estampadas nos cartazes feitos artesanalmente para as passeatas refletem em grande medida – de forma criativa e oxigenada – as agendas levantadas pelos movimentos sociais nos últimos anos.

Por enquanto, o que se pode dizer é que as mobilizações mudaram. Saem os discursos dos carros de som, entram as marchinhas e performances espontâneas de anônimos e coletivos. Menos panfletos e faixas, mais cartazes e projeções de vídeo. Tudo sendo transmitido ao vivo – por grupos de jornalismo independente ou por qualquer um com celular, outra novidade das jornadas de junho. Graças ao streaming, o reality showdos protestos escancarou situações há muito conhecidas e denunciadas pelas periferias urbanas e pelos movimentos sociais: a extrema brutalidade da polícia brasileira e a cobertura tendenciosa da mídia corporativa.

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“Não acabou, tem que acabar,  eu quero o fim da Polícia Militar”

Se tudo começou por 20 centavos – sintoma mais evidente do encarecimento do custo de vida e da gentrificação dos centros urbanos –, não há dúvidas de que tanto a resposta violenta da polícia como a cobertura distorcida das empresas de comunicação acabaram por rapidamente unificar no país duas pautas necessárias e urgentes: a desmilitarização da polícia e a democratização da mídia.

A dobradinha “a mídia aponta, a polícia atira” tem servido para estigmatizar e criminalizar todo aquele que ameace a ordem e os interesses corporativos. As mesmas alcunhas de “subversivos”, “baderneiros”, “vândalos”, “terroristas” já foram e seguem sendo repetidaspelos mesmos meios de comunicação para designar militantes que lutaram contra a ditadura, trabalhadores grevistas, sem-terra, sem-teto, vendedores ambulantes, indígenas e moradores de favelas.

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Hoje, o alvo são os Black Blocs. Para desespero inconformado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e das polícias, o novo “inimigo interno” nem sequer se constitui como movimento. Não tem líderes nem sede. Como se sabe, black blocnada mais é do que uma tática de ação direta surgida na Europa nos anos 1980, que, por um lado, protege os manifestantes da violência policial e, por outro, ataca símbolos do autoritarismo e do capitalismo. Porém, nada disso importa: eles são o novo bode expiatório.

Se a tática black blocpode ser considerada uma das grandes novidades das mobilizações no Brasil, a resposta do Estado, no entanto, continua a mesma: abuso de autoridade, repressão policial, legislação de exceção e criminalização.

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Há requintes de crueldade e toques de surrealismo na ação dos agentes de segurança nestes últimos seis meses. Policiais sem identificação nominal usam indiscriminadamente armas Taser e spray de pimenta, jogam bombas dentro de casas e hospitais e abusam dos tiros de bala de borracha – que cegaram pelo menos duas pessoas.

No Complexo da Maré, no entanto, as balas não eram de borracha. Em 24 de junho, após manifestação realizada no bairro de Bonsucesso pela redução do valor da passagem de ônibus, o Bope – com o apoio da Força Nacional – entrou na favela e matou dez moradores. A mídia tradicional logo caracterizou o massacre como “confronto entre policiais e traficantes”. Longe de ser um ato isolado de alguns agentes, a brutalidade e a arbitrariedade constituem o modus operandida polícia, claramente ditado por seus comandantes, que devem ser responsabilizados.

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Em São Paulo, pessoas foram detidas por “porte de vinagre” – como no caso do jornalista Piero Locatelli, que cobria as manifestações. No Rio, o morador de rua Rafael Vieira está preso desde 20 de junho, autuado por suposto “porte de explosivo”. No documento policial, no entanto, consta a apreensão de uma vassoura, uma garrafa de desinfetante e água sanitária, material que Rafael usava para limpar o local onde dormia: o chão da rua.

No Distrito Federal, mais de trinta pessoas foram detidas durante protesto na abertura da Copa das Confederações. Muitas horas depois, militantes foram presos dentro de casa, em suposto flagrante. Também na capital, no dia 15 de novembro, após ato pela desmilitarização da polícia, cinquenta manifestantes foram detidos e quinze deles levados para presídios.

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No Rio de Janeiro, após manifestação no dia 15 de outubro em apoio à greve dos professores municipais, cerca de duzentas pessoas foram conduzidas à força a delegacias, tendo ocorrido 84 prisões provisórias por supostos flagrantes. Além do grande volume de detenções, o que qualifica especialmente esse dia é o uso da Lei de Organizações Criminosas (Lei n. 12.805/2013) contra os manifestantes, enquadrando a atividade de protesto como “associação criminosa”. Igualmente grave foi o uso de penas inafiançáveis para dificultar a liberdade dos manifestantes presos e a internação forçada de adolescentes. Um manifestante que participava da ocupação na escadaria externa da Câmara dos Vereadores do Rio, Jair Seixas, conhecido como Baiano, permanece preso, acusado injustamente do crime de associação com porte de arma.

Em São Paulo, a polícia ressuscitou da ditadura a Lei de Segurança Nacional para enquadrar um casal de manifestantes. Em 28 de outubro, a polícia prendeu mais de noventa manifestantes na zona norte paulistana. No dia 14 de novembro, cerca de oitenta manifestantes, logo chamados de “Black Blocs”, foram intimados a prestar depoimento. O promotor do caso, antes mesmo de concluir as investigações, afirmou estar “lidando com uma organização criminosa” e, com base em “matérias jornalísticas”, comparou os Black Blocs às Farc, exatamente como fez o Ministério Público do Rio Grande do Sul em relação ao MST cinco anos atrás.

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“Da Copa, eu abro mão. Quero dinheiro para a saúde e a educação”

A menção à Copa do Mundo nos gritos durante os protestos no país não é por acaso. Das vaias à presidente Dilma na abertura da Copa das Confederações em Brasília, os protestos seguiram o calendário dos jogos e ocorreram em praticamente todas as cidades-sede, deixando claro o descontentamento da população com os excessivos gastos em megaeventos esportivos e com as inúmeras violações de direitos humanos cometidas “em nome da Copa”. O desfecho violento na final no Maracanã mostrou o que pode acontecer – em maior ou menor escala – em 2014.

Em seu pronunciamento oficial de 21 de junho, a presidente Dilma defendeu que o Brasil vai fazer uma grande Copa. Apesar de se dizer atenta “às vozes democráticas que pedem mudanças”, a presidente não proferiu nenhuma palavra sobre os abusos policiais nem fez até hoje qualquer menção à urgente reforma das polícias, reivindicada nas ruas.

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No dia 31 de outubro, o governo federal deu mostras que terá uma postura ainda mais repressiva. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se reuniu com os secretários de Segurança Pública do Rio e de São Paulo para propor a cooperação das inteligências das polícias e da Abin e medidas de exceção, como a criação de tribunais itinerantes durante as manifestações e mudanças na legislação.

Coincidentemente ou não, as medidas do Ministério da Justiça e as ações mais contundentes de repressão e prisões maciças em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal ocorreram algumas semanas após uma reunião de emergência da presidente Dilma com dois dos principais patrocinadores da Copa, que pediram garantias de que as manifestações não atrapalhariam o Mundial. De acordo com a imprensa, a presidente teria assegurado que fará “tudo o que for preciso” para que não haja protestos.

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Enquanto o governo garante que não vai haver protestos durante a Copa, as multidões e as redes sociais ecoam o grito de “Não vai ter Copa”. Essa é a nova síntese que vem das ruas. Ainda é cedo para saber se a expressão é um vaticínio ou mera provocação; uma palavra de ordem ou apenas uma hashtag. 2014 ainda não começou.

Fotos: Juisy

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil/Andressa Caldas e Eduardo Baker – Advogados e pesquisadores da Justiça Global, e Thiago Melo – Advogado do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH)

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