Mulheres: só 44% estão satisfeitas sexualmente

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Metade dos brasileiros está insatisfeito na vida sexual. No quesito prazer, apenas 22% das mulheres chegam sempre ao orgasmo e só 44% delas estão satisfeitas com sua vida sexual. E quase 40% das mulheres reprovam sexo no primeiro encontro. Os dados são de uma pesquisa inédita divulgada em janeiro de 2014 pela marca de preservativos “Durex Global Survey Sex” em evento realizado em São Paulo.

Pesquisa traçou o perfil dos brasileiros - TEMPO DE MULHER

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O estudo, que entrevistou 1.004 homens e mulheres no país com idade entre 18 e 65 anos, sendo que 89% desse total estavam, na época da pesquisa, em união estável há mais de um ano, traçou o perfil sexual do brasileiro e foi apresentado pela terapeuta sexual Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

O “Casal Sem Vergonha”, formado pelos blogueiros Jaque Barbosa e Eme Viegas, que fazem sucesso na internet com dicas de comportamento sexual, também participou comentando alguns dados da pesquisa.

a11 Em relação à duração do ato sexual, 36% dos homens e mulheres têm relação que dura de 6 a 15 minutos. Já 13% dos brasileiros levam até 5 minutos numa relação sexual como um todo e, para 33% dos entrevistados, o sexo dura entre 16 a 30 minutos. Mas por que o brasileiro, apesar da alta frequência e apesar de despender tempo para o sexo de pelo menos 20 ou 30 minutos em cada relação, não está conseguindo a satisfação sexual?

a12 ”Porque mais de 60% dos brasileiros têm dificuldade em admitir algum problema sexual. Se não admite, não lida com o problema, não busca soluções”, explica a sexóloga Carmita Abdo. Segundo o estudo, 65% dos homens e 63% das mulheres não conseguem admitir dificuldades sexuais. Para a terapeuta, como a falta de diálogo sobre sexo é algo difícil para boa parte da população, a maioria dos casais não se sente apta em discutir abertamente sobre seus desejos e possíveis problemas durante a relação. “A falta de comunicação faz com que situações que poderiam ser facilmente resolvidas entre o casal se tornem um problema”, avaliou a psiquiatra.

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Jaque Barbosa explicou que a noção de que o brasileiro não tem tabus entre quatro paredes não é verdade. “Recebemos todos os dias cerca de 50 e-mails com dúvidas, desabafos e queixas sexuais. Apesar dessa ideia de que o brasileiro é um povo um pouco mais soltinho, nós percebemos que ainda há um verdadeiro tabu na hora de casais conversarem sobre sexo. Mesmo em casais com intimidade há muito tempo, esse assunto de sexualidade acaba sendo tabu”, contou a blogueira do “Casal Sem Vergonha”.

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Além disso, fazer sexo com alguém que não seja o seu parceiro habitual é considerado traição por 91% das mulheres. Já 22% dos homens acham que fazer sexo fora da relação, desde que não seja uma relação afetiva, não significa traição. No geral, 18% dos homens revelaram ter outras parcerias sexuais fora do relacionamento e, entre as mulheres, 8% revelou a mesma coisa no momento da pesquisa. “Vamos percebendo que homens são, comparativamente com as mulheres, mais liberais quando se trata deles fazerem sexo”, analisou Carmita.

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Apenas 5% das mulheres fazem sexo diariamente -
Segundo a pesquisa, quase metade dos entrevistados (49%), tanto homens quanto mulheres, disseram que fazem sexo mais do que três vezes por semana. Já 33% afirmaram fazer uma a duas vezes na semana e 15% disseram fazer sexo uma vez por mês. Ainda segundo o estudo da ‘Durex Global Survey Sex’, apenas 12% dos homens fazem sexo diariamente e só 5% das mulheres têm essa mesma frequência sexual.

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Quase 40% das mulheres aprovam sexo no primeiro encontro – Segundo o estudo, 39% das mulheres entrevistadas concordam com sexo no primeiro encontro enquanto que 58% dos homens acha aceitável sexo já na primeira noite. Já 17%, no geral, não concorda nem discorda, mas deixa acontecer. ‘Mas a opinião das mulheres sobre questões como essa e sobre infidelidade já são muito diferentes do que há 10 anos’, ponderou Carmita.

Para Jaque Barbosa, do site ‘Casal Sem Vergonha’, muitas mulheres ainda têm esse receio de fazer sexo no primeiro encontro por medo de passar uma imagem negativa. ‘O que recebemos de feedback é que muitas mulheres gostariam sim de poder fazer sexo no primeiro encontro, claro, em situações onde role química e há o desejo dos dois. Mas ainda existe esse medo dessa imagem que elas vão passar ao homem principalmente quando há um interesse maior, que é o da relação se desenvolver’, analisou a blogueira.

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Apenas 44% das mulheres estão satisfeitas sexualmente – A pesquisa mostrou que metade dos entrevistados está insatisfeito com sua vida sexual. Para os homens, essa insatisfação é de 51% e, para as mulheres, de 56% (apenas 44% delas estão satisfeitas sexualmente). Segundo o estudo, 65% de homens e 63% de mulheres não conseguem admitir ter dificuldades sexuais.

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Só 22% das mulheres chegam sempre ao orgasmo – No estudo, mais da metade dos homens entrevistados (52%) afirmaram que sempre chegam ao orgasmo quando fazem sexo. Já 14% deles chegam lá ‘quase sempre’ e ‘com muita frequência’ apenas 9%. Quanto às mulheres, só 22% disseram que conseguem chegar sempre ao orgasmo nas relações.

a728% das mulheres chegam mais facilmente ao orgasmo quando se masturbam 
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Outro dado da pesquisa é que 37% dos entrevistados afirmaram que chegam ao orgasmo tanto com a masturbação quanto com a relação sexual (para homens, o número é 38% e, para mulheres, 36%). Além disso, 28% das entrevistadas disseram que chegam mais facilmente ao orgasmo quando se masturbam.

‘Conhecendo mais o seu corpo do que o seu parceiro, elas acabam tendo a facilidade tanto na masturbação quanto na parceiria sexual. Mas aquelas que não comentam, não conversam como gostam de ser acariciadas e qual o tipo de carícias que as levariam ao orgasmo, acabam tendo mais prazer em se tocarem do que quando estão no ato sexual’, analisa a sexóloga Carmita Abdo.

a8 Sexo diminui estresse para 67% das mulheres – Para quatro em cada cinco entrevistados, uma boa vida sexual é fundamental para o bem-estar. Mais que os homens, elas revelaram que o humor delas melhora com o sexo: melhora para 63% deles e para 72% delas. Além disso, segundo o estudo, a atividade sexual diminui o estresse para 59% dos homens entrevistados e para 67% das mulheres. Concordam que o sexo faz as pessoas se sentirem mais saudáveis, 61% dos homens e 59% das mulheres.

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Brasileiros investem nas preliminares -
De acordo com o estudo, 40% dos brasileiros disseram que investem de 5 a 15 de minutos nas preliminares antes do sexo. Já 15% afirmaram dedicar de 0 a 5 minutos para as preliminares e 32% investem entre 16 a 30 minutos. Só 13% dos entrevistados disseram dedicar mais de 30 minutos neste quesito.

a10 Dor durante o sexo e perda de libido -

51% das mulheres entrevistadas declararam já sentirem dor durante o sexo e 32% delas já tiveram perda de libido durante sua vida sexual. Além disso, a secura vaginal já foi um problema para 26% das mulheres da pesquisa. Já 16% dos homens entrevistados disseram ter experimentado perda de libido em algum momento da vida sexual. Mas, em contrapartida, 62% deles negam ter dificuldades em manter uma ereção.

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36% dos brasileiros têm relação sexual que dura de 6 a 15 minutos – No que diz respeito à duração do ato sexual, 36% dos homens e mulheres têm relação sexual que dura de 6 a 15 minutos. Já 13% dos brasileiros levam de 0 a 5 minutos numa relação sexual como um todo e, para 33%, o sexo dura entre 16 a 30 minutos.

a18 Sete em cada 10 homens encaram como obrigação satisfazer a parceira – De acordo com o estudo, sete em cada 10 homens está preocupado em satisfazer a parceira, ou seja, 70% dos homens brasileiros preocupam-se em dar prazer à parceira durante o sexo. Já 53% delas acham que têm o dever de satisfazer o parceiro. Na opinião da sexóloga Carmita Abdo, isso mostra uma mudança de paradigma.

‘Hoje, a satisfação da mulher importa, sim, ao homem. Depois da revolução sexual as mulheres, tendo a possibilidade de conhecer mais de um parceiro e poderem, dessa forma, terem um comparativo, faz com que esse índice da pesquisa aconteça. Jovens temem não serem tão interessantes como o outro parceiro que ela possa ter tido e aí a necessidade de satisfazer acaba sendo crescente’, explica.

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22% dos homens acham que fazer sexo fora da relação não é traição – Mais da metade dos entrevistados da pesquisa acredita que paquerar (52%) e mandar mensagens apimentadas (54%) é traição. Fazer sexo com alguém que não seja o seu parceiro habitual é considerado traição por 91% das mulheres. Já 22% dos homens não acham que sexo fora da relação é traição. ‘Vamos percebendo que homens são, comparativamente com as mulheres, mais liberais quando se trata deles fazerem sexo ou paquerarem pessoalmente ou enviarem mensagens’, explicou Carmita Abdo.

a20 69% dos brasileiros acha possível manter desejo em relações longas – Para 69% dos entrevistados, é possível manter o desejo sexual em relacionamentos longos. As mulheres acham que há formas de manter o desejo vivo em longos relacionamentos em 70% dos casos, quase o mesmo percentual de homens (69%). Apenas 15% delas e 19% deles discordam.

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17% dos brasileiros recorrem a artigos para melhorar o sexo - A pesquisa ainda comparou os dados do Brasil com os de 36 outros países no estudo que é realizado a cada dois anos. Em relação ao uso de apetrechos, o brasileiro perde para os outros países: 17%, no país, recorrem a artigos para melhorar o sexo contra 22% da média global. Em relação a pessoas de outros países, os brasileiros se mostram mais abertos a diversificar o sexo: 50% dos brasileiros recebem sexo oral (ante 33% no resultado global) e 48% fazem sexo oral (contra 32% dos outros países).

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Fotos: Juizy
Fonte: issoenoticia.com.br

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Agora o Obama se rasga todo

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O Brasil formalizou uma parceria com uma empresa espanhola para construir e operar um novo cabo submarino de fibra ótica para transmitir dados de internet entre o país e o continente europeu. A proposta de criação de uma empresa de capital misto foi aprovado nesta semana pelo Conselho de Administração da Telebras. A estrutura, que deve ficar totalmente pronta até 2016, deve custar US$ 185 milhões.

A JVCo (Joint-Venture Company) será uma empresa brasileira, com participação acionária de 35% da Telebras e 20% de fundos de investimentos, além de 45% da espanhola IslaLink Submarine Cables. As operações para a instalação do cabo devem começar já no segundo semestre deste ano. A previsão da Telebras é de que a estrutura entre em operação 18 meses após o início das obras, segundo informou o presidente da Telebras, Francisco Ziober Filho, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (15).

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Atualmente, o Brasil está conectado ao exterior por meio de cinco cabos submarinos, mas apenas um deles vai para a Europa. Os demais ligam o país aos Estados Unidos. A expectativa é que a adesão de mais uma conexão ajude a baratear os serviços de internet no país, além de ampliar a capacidade de transmissão de dados. O governo também considera o novo cabo um projeto estratégico em relação à segurança digital, minimizando a interferência dos Estados Unidos nas comunicações.

A Telebras também anunciou um pré-entendimento com as empresas Silica Networks Argentinan S.A. e Silica Networks Chile S.A. para construir, operar e manter uma rede de fibra ótica para estabelecer uma conexão entre o Brasil e a Argentina. A conexão vai da cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, até a cidade de Paso de Los Libres, província de Corrientes. O cabo ainda teria uma ligação direta ao Chile, abrindo acesso às redes na costa do Oceano Pacífico.

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Fotos: Internet

Fonte: Jornal GGN/Telebras/Olhar Digital

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O que é ser mulher

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Justamente por ter uma lógica própria de se colocar no mundo, Simone decidiu escrever “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca havia se perguntado: o que é ser mulher? Essa continua sendo uma pergunta atual, que deve ser feita por todas nós em algum momento da vida.

Hoje é o aniversário de Simone de Beauvoir. Se estivesse viva, ela faria 104 anos. É dela uma das principais frases do movimento feminista: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” A mulher não tem um destino biológico, ela é formada dentro de uma cultura que define qual o seu papel no seio da sociedade. As mulheres, durante muito tempo, ficaram aprisionadas ao papel de mãe e esposa, sendo a outra opção o convento. Porém, a própria Simone rompe com esse destino feminino e faz de sua vida algo completamente diferente do esperado para uma mulher.

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Nascida em uma família da alta burguesia francesa, Simone era a mais velha de duas filhas. Durante sua infância a família faliu e, por considerar que as filhas não conseguiriam bons casamentos, pois não havia dinheiro para um bom dote, George de Beauvoir se convenceu de que somente o sucesso acadêmico poderia tirar as filhas da pobreza.

De fato, Simone de Beauvoir teve mais poder de escolha que muitas mulheres de sua época. A educação e o desenvolvimento acadêmico são até hoje maneiras de forjar mulheres mais independentes, que rompem com os padrões de sua época. Ela faz uma crítica aos valores burgueses nos quais foi criada no livro “Memórias de uma moça bem comportada”.

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Simone de Beauvoir tinha 41 anos quando publicou “O Segundo Sexo”, em 1949. Já naquela época a obra levantou inúmeras polêmicas. Uma das principais acusações é que Simone ridicularizava os homens. Isso é uma acusação que muitos usam contra o feminismo. Porém, as pessoas parecem não querer compreender o que realmente se passa na vida das mulheres e como todo o poder está concentrado nas mãos dos homens. “O Segundo Sexo” não é uma fonte historiografica para conhecer a história da mulher desde a antiguidade. É uma obra de inspiração, fundamental para descortinar a maneira pela qual as mulheres são criadas justamente para serem menos que os homens. Você pode baixar “O segundo sexo” no blog livros Feministas.

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Lendo algumas das críticas que foram feitas a “O Segundo Sexo”, muitas parecem absurdas, mas ainda lemos opiniões conservadoras e moralizantes em diversos cadernos de opinião da mídia brasileira, especialmente quando se trata da sexualidade feminina. Entre seus críticos estava François Mauriac, escritor francês, que em uma de suas enquetes no Figaro Littéraire perguntou: “Estaria a iniciação sexual da mulher no seu devido lugar no sumário de uma revista literária e filosófica séria?” A questão dividiu os intelectuais. Para muitos “O Segundo Sexo” é um “manual de egoísmo erótico,” recheado de “ousadias pornográficas”; não passa de “uma visão erótica do universo”, um manifesto de “egoísmo sexual.” Jean Kanapa insiste: “Mas sim, pornografia. Não a boa e saudável sacanagem, nem o erotismo picante e ligeiro, mas a baixa descrição licenciosa, a obscenidade que revolta o coração.” A polêmica mistura tudo. A contracepção e o aborto são ligados nas mesmas frases às neuroses, ao vício, à perversidade, e à homossexualidade. Segundo uma carta da enquete, “a literatura de hoje é uma literatura de esnobes, de neuróticos e de impotentes.” Claude Delmas deplora “a publicação por Simone de Beauvoir dessa enjoativa apologia da inversão sexual e do aborto.” Pierre de Boisdeffre em Liberté de l’ésprit assinala “o sucesso de O Segundo Sexo junto aos invertidos e excitados de todo tipo.” Leia mais em “O Auê do Segundo Sexo” de Sylvie Chaperon, publicado no Cadernos Pagu 12, de 1999.

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Nenhuma obra, literária ou acadêmica, de Simone de Beauvoir foi recebida com indiferença. Sua principal contribuição é sempre propor a discussão democrática e as rupturas das estruturas psíquicas, sociais e políticas. Por ser escrito por uma mulher e para mulheres, “O Segundo Sexo” levanta diversas questões, até mesmo no meio literário. Há muito tempo a literatura classificada como feminina é sinônimo de textos sem grande aprofundamento teórico. Além disso, não era comum tratar de assuntos como sexualidade, maternidade e identidades sexuais, mesmo na França do pós-guerra.

Em 2009, Fernanda Montenegro estreou a peça ” Viver sem tempos mortos”, baseada nas cartas autobiográficas de Simone de Beauvoir. A temporada de 2011 foi encerrada em dezembro, mas há a possibilidade da peça reestrear novamente no futuro. Em entrevista a Revista Bravo, Fernanda Montenegro respondeu algumas perguntas sobre sua relação com a obra de Beauvoir:

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Qual o primeiro livro dela que você leu?

Foi O Segundo Sexo, que saiu em 1949 e se transformou num clássico da literatura feminista, sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres. Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura. O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres e como as próprias mulheres se enxergavam. Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração e nortearam as nossas discussões cotidianas. Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises. Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.

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De que modo alterou a sua?

Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples, muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas. Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam. E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência, os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam. Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família sem dar bola para certos pudores burgueses. Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente não me impressionou tanto. Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade. A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas, de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia. Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente. Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo. Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas. O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo que O Segundo Sexo exerceu sobre mim. Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós, que não caminharia à sombra masculina. O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante. Continue lendo em “A vida é um demorado adeus”.

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Justamente por ter uma lógica própria de se colocar no mundo, Simone decidiu escrever “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca havia se perguntado: o que é ser mulher? Essa continua sendo uma pergunta atual, que deve ser feita por todas nós em algum momento da vida.

Fotos: La Vetrina Di Eros in Becheca/Fleur de Lune/La Dama Nera/My Sweetness Black&White

Fonte: Brasil de Fato/Bia Cardoso

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Dados do internauta revoluciona publicidade

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Enquanto a espionagem de dados pelo governo norte-americano provoca protestos, as empresas aperfeiçoam as técnicas que lhes permitem seguir os internautas. Elas são ajudadas pela multiplicação de informações pessoais na rede. Assim, escapar das mensagens publicitárias torna-se uma corrida com obstáculos.

“Uma Guinness, John?”, “Estressado, John Anderton? Precisando de umas férias?”. Interpretado por Tom Cruise, o herói de Minority Report não consegue dar um passo sem ser assediado por mensagens publicitárias personalizadas brilhando em telas à sua frente. A ação do filme se passa em 2054. Seu diretor, Steven Spielberg, não deve ter imaginado, durante as filmagens, em 2001, que muitas das invenções encenadas na obra seriam realidade dentro de dez anos. Objetos conectados à internet, telas sensíveis ao toque, interfaces gestuais, reconhecimento de voz, jornais eletrônicos atualizados em tempo real,outdoors digitais capazes de reconhecer o espectador pelo rastreamento do olhar (eye tracking)… Todas essas tecnologias já são vividas cotidianamente e fazem a indústria da publicidade se reinventar.

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O Google promete comercializar no próximo ano o Google Glass, óculos que permitem consultar uma página web ou clicar em e-mails apenas inclinando a cabeça. Com uma conexão sem fio, um indivíduo poderá entrar num aeroporto e ver no vidro de seus óculos não apenas a indicação do caminho para a área de check-in, mas também o número de seu voo e a hora do embarque. O outro lado dessa façanha tecnológica é fácil de imaginar: nada daquilo que você vai ver poderá escapar ao gigante californiano – o que você faz, os lugares que frequenta, os produtos que consome, as pessoas que encontra…

Houve um tempo em que a humanidade consumidora se dividia em tantos alvos quanto fosse o público a seduzir através dos meios de comunicação de massa. Esse tempo passou.1 Servidores utilizados para fins publicitários agora identificam nossos interesses, nossas ligações em redes sociais, nossos gostos culturais, os lugares que visitamos ou onde fazemos compras. Em suma, mesmo que não se trate jamais de cadastrar oficialmente uma população, a segmentação pode ser tão precisa que, mesmo sem conhecê-lo pelo nome, uma marca é capaz de saber tudo sobre um consumidor.

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Como constata Hervé Bazot, presidente da associação UFC-Que Choisir, estamos observando uma “captação tentacular, sem transparência, e uma utilização ao infinito de dados pessoais”.2 Porém, na França, a Lei Informática e Liberdades, de 1978, dispõe a garantia da transparência e da informação prévia a qualquer pessoa que seja cadastrada. E se os dados vierem a ser arquivados, há um limite de tempo para se manterem armazenados.

Medo de uma legislação muito dura

Mas é impossível saber por quanto tempo Google, Facebook, Yahoo e outros ficam com os nossos dados. A União Europeia aprovou uma norma, em 1995, para garantir a proteção das informações de caráter pessoal, reformulando a exigência em 2009, por ocasião de outra norma chamada “Pacote Telecom” – retranscrita na França por um regulamento de 24 de agosto de 2011; mas ela luta para conseguir aplicar um texto que deve ser transposto em direito em cada um dos 28 Estados-membros. Então, em janeiro de 2012, Bruxelas aprovou um regulamento de aplicação direta para evitar as múltiplas interpretações.

Enquanto os gigantes da internet se defendem argumentando que dispõem de dados anônimos, a Comissão Europeia tende a considerar que o IP – sigla para Internet Protocol, ou seja, a identidade do computador – é um elemento que conduz ao estabelecimento de dados pessoais. Portanto o consumidor deve estar ciente de que tais dados são coletados, por quanto tempo e aprovar sua utilização para fins publicitários. Esse texto regulamentar, que deve ser apresentado ao Parlamento Europeu no final de 2013, já resultou na diligente apresentação de 4 mil emendas pelos lobistas. Ele deverá ser votado na Comissão até a metade de 2014, para ser aplicado em 2016.

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Hoje, apenas o fornecimento de dados de geolocalização passa por um pedido de acordo prévio por parte dos fornecedores de aplicativos móveis. Mas o mobinauta hesita cada vez menos em se deixar localizar, uma vez que esse é o único meio de acessar os serviços de proximidade (“perto de mim”), como encontrar um restaurante, um terminal de bicicletas, uma estação de metrô etc. E a concordância do usuário nem sempre é solicitada. Segundo um estudo realizado pela Comissão Nacional de Informática e Liberdades (Cnil) e pelo Instituto de Pesquisa em Informática Aplicada (Inria), divulgado em abril de 2013, 31% dos 189 aplicativos testados por três meses no i-Phone avançam automaticamente para a geolocalização do mobinauta, e 8% para seu catálogo de endereços. A Apple torna obrigatória a presença de um identificador com fins de segmentação publicitária para qualquer usuário do sistema operacional IOS 6. O código é utilizado para armazenar os hábitos de navegação, na forma de cookies.

Cookies? Esses pequenos arquivos-robôs que acompanham nossa navegação na web tornam a publicidade na internet particularmente eficaz. De acordo com o relatório da senadora francesa Catherine Morin Desailly, contam-se em média trezentos deles armazenados em um navegador da internet (Explorer, Safari, Mozilla…).

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Em março de 2013, o grupo das Cnils europeias, chamado G29, publicou recomendações a fim de limitar ao mínimo estrito o acesso aos dados pessoais dos usuários. Ele recomenda que se usem identificadores temporários e, especialmente, que os usuários sejam informados sobre os dados coletados, ou ainda que se peça seu consentimento antes de realizar qualquer rastreamento publicitário. Essa opção, conhecida como opt-in, que permite ao usuário o controle real dos dados que fornece, é rejeitada pelo lobby da publicidade on-line. Este, representado na Europa pelo Internet Advertising Bureau (IAB), prefere o opt-out, que implica um procedimento ativo de saída do internauta. Assim, o IAB criou a plataforma Youronlinechoices.eu, que envia o usuário para uma página de desativação de arquivos espiões. Para acessá-la, o internauta é convidado a clicar em uma aba na qual se propõe – na cor verde – “aceitar todas as empresas” enviandocookiesou – em vermelho – “rejeitar todas as empresas”.

Mesmo antes de você clicar na opção em vermelho, o Google já passa a se comunicar apenas em inglês e o eBay adverte que “anúncios continuarão a aparecer, mas poderão ser menos pertinentes”. Uma vez ativado o fatídico botão, o Yahoo explica que “a ferramenta não conseguiu conectar-se a todas as empresas” e que o problema é provavelmente causado por “pluginsde bloqueio publicitário do tipo AdBlock Plus3 [que] podem inviabilizar as desativações”.

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Já o MSN, portal da Microsoft, prefere confundir o internauta com a aba “Escolher seus anúncios”, enviando-o para uma área “Saber mais”, que contém uma declaração de confidencialidade. Lá, somos lembrados de que os cookiesservem para “ativar algumas funcionalidades de pesquisa”. E embora seja oferecido um link para “Nossa página de recusa de anúncios”, o internauta volta para a página inicial, após um percurso que o direcionou de “Outras coisas que você deve saber” para “Mostrar anúncios” e em seguida a uma “Página de saída”, levando a um impasse.

É necessário então um controle sobre os navegadores? A Digital Advertising Alliance – federação de agências de segmentação, anunciantes e meios de comunicação norte-americanos, como TimeThe Washington Poste o grupo Conde Nast, que representa 90% da publicidade segmentada na internet nos Estados Unidos – prega a autorregulação. No final de 2012, seus quatrocentos membros comprometeram-se a não rastrear os internautas que pedissem isso em seu navegador. O Mozilla, que opera no modelo “livre”, anunciou em fevereiro que iria estabelecer como padrão o bloqueio de cookiescomerciais no navegador Firefox e foi o primeiro a propor a “Navegação privativa” (“Do not track”). Em seu rastro vieram o Internet Explorer (Microsoft), o Safari (Apple) e finalmente o Chrome (Google), adotando dispositivos similares. É preciso dizer que a simples menção pelo governo Obama, em 2012, de um projeto de “Carta para a proteção dos dados dos consumidores”, antes de ser votada uma lei no Congresso, levou os atores da publicidade a dar mostras de boa vontade para evitar uma legislação mais dura.

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Mas essas soluções estão longe de ser perfeitas. Primeiro porque as empresas de segmentação publicitária conseguem obter informações de navegação sem o conhecimento do internauta, por meio do “cache”, memória informática que armazena temporariamente cópias de dados para reduzir o tempo de acesso ao conteúdo. Isso não é possível em qualquer lugar – especialmente não no Firefox –, mas no Safari é.

Quanto ao sistema de “navegação privativa”, a Cnil destacou que ele só estaria em conformidade com o direito de confidencialidade reconhecido pela norma europeia transposta na França no final de 2011 se fosse habilitado como padrão nos computadores. Um caminho categoricamente recusado pelos gigantes da publicidade, que muitas vezes são também os fabricantes norte-americanos desses programas de navegação. Por ora, continua a oposição entre a Europa que opta pela adesão (opt-in) e os Estados Unidos que optam pela saída (opt-out).

Um anúncio de máquina de lavar roupas invadiu todos os sites que você visita desde que fez uma pesquisa para saber o preço dos modelos existentes? Esse é um sinal de que você está sendo rastreado por meio dos famosos cookies. Mas, para se adaptar aos usuários resistentes que ainda apagam cookies e aplicativos móveis que não os utilizam, alguns integrantes do setor já estão no pós-cookies. Eles apostam principalmente na tecnologia de impressão digital, estabelecida com base nos vestígios deixados pelo navegador ou pelo próprio aparelho. É o que preocupa a Criteo, bem-sucedida companhia francesa que pretende entrar no Nasdaq: ela segmenta os internautas a partir dos cookies, que, com os novos métodos de rastreamento, poderiam ser rejeitados, no futuro, pelo navegador Chrome do Google.4

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O Google, aliás, tornou-se um especialista de segmentação em função do contexto editorial, por meio do programa AdSense: ele envia anúncios baseando-se na temática da página da web visitada. Ou por meio da comercialização de links patrocinados em resposta a pesquisas no programa de busca, ou ainda em função de palavras encontradas nas contas do Gmail – por exemplo, um anúncio sobre “Férias no Marrocos”, se um e-mail em sua caixa postal menciona esse país.

A essa segmentação contextual e comportamental soma-se uma nova dimensão, fundada na interação social. Ainda menos transparente que o Google sobre o uso de dados pessoais, o Facebook explora informações fornecidas voluntariamente por seus membros aos “amigos”. Faixa etária, cidade, interesses, profissão… A isso se acrescentam os “amigos” geolocalizáveis dos usuários da rede social. “Nossos catálogos de endereços são totalmente varridos pelo Facebook por meio de nosso telefone celular ou e-mail, e uma identificação biométrica padrão permite reconhecer logos e fotos de rostos sem que o contribuinte tenha dado permissão explícita”, diz a associação Internet sem Fronteiras (AFP, 18 maio 2012).

Promoção por um “like”

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Em 2007, o Facebook foi obrigado a desculpar-se pelo programa Beacon, que alertava a comunidade de “amigos” sempre que um dos membros fazia uma compra on-line. Hoje, a publicidade dá lugar à recomendação “social”. O internauta que clica em “Curti” e vira fã de uma marca compartilha automaticamente a notícia com toda a sua rede. “A exposição a uma marca ‘curtida’ por um ou mais amigos quadruplica a intenção de compra dos usuários expostos a esses anúncios”, indica Matthieu de Lesseux, presidente da DDB Paris (Challenges, 5 abr. 2012). O anúncio aparece no feedde notícias (linha do tempo), entre os elementos publicados pelos “amigos”. O Twitter também insere mensagens patrocinadas nessa área reservada normalmente para as contas selecionadas pelo usuário. Um anúncio qualificado de “nativo”, já que nasce no mesmo fluxo de informações.

A comunidade “amiga” pode saber o que o usuário está ouvindo, por meio do serviço de música on-line Deezer; o que ele lê, graças a parcerias com jornais; e o que deseja comprar. “Pouquíssimos usuários compreendem totalmente – e muito menos controlam – a exploração dos dados utilizados para impulsionar a atividade publicitária do Facebook”, destaca Jeff Chester, diretor do Centro para a Democracia Digital (AFP, 1o fev. 2012). Basta clicar no botão “Facebook Connect” para que a rede social forneça a terceiros as informações sobre a identidade de um cliente. Os termos de uso da rede, que muda regularmente seus parâmetros de confidencialidade, são geralmente ilegíveis. Seus data centers, aliás, os parques de servidores que armazenam esses dados, também são de propriedade da gigante californiana, escapando a qualquer controle das autoridades estrangeiras.5

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Poderíamos pensar que os mastodontes da internet que vivem da publicidade não nos custam nada. Isso não é verdade: eles nos custam nossos dados. Um valor total estimado em 315 bilhões de euros no mundo em 2011, ou seja, 600 euros por indivíduo, de acordo com o Boston Consulting Group. Uma riqueza fornecida pelos próprios internautas, que se tornam “quase funcionários, voluntários, das empresas”, como escrevem Nicolas Colin e Pierre Collin em um relatório sobre a tributação na era digital.6Localizados em terras de asilo europeias, subtraídas da economia real por meio de sistemas de evasão em paraísos fiscais, esses gigantes praticamente não pagam impostos sobre as empresas, ou escapam da taxa sobre valor agregado (TVA). Para um montante de 2,5 bilhões a 3 bilhões de euros de volume de negócios na França, as empresas Google, Apple, Facebook e Amazon pagam apenas 4 milhões de euros, “quando poderiam pagar 500 milhões de euros, se o sistema tributário lhes fosse plenamente aplicado”, de acordo com um parecer de 14 de fevereiro de 2012 do Conselho Nacional do Digital.7

Os grandes atores norte-americanos da internet desestabilizam o mercado publicitário. Enquanto suas receitas explodem, as dos meios de comunicação tradicionais não param de cair. Entre 2007 e 2012, na França, o mercado publicitário passou de 4,8 bilhões para 3,2 bilhões de euros para a imprensa, e de 3,6 bilhões para 3,3 bilhões de euros para a televisão. Mas as mídias tradicionais financiam a criação de conteúdo: obras de ficção, filmes cinematográficos, documentários, entrevistas, reportagens… Do 1,8 bilhão de euros em receitas de publicidade on-line – incluídos os links patrocinados –, só o Google captou cerca de 1,5 bilhão de euros na França.

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Espaços leiloados

A televisão tenta revidar, criando seus próprios serviços de publicidade individualizados. Na França, aplicativos para segunda tela (smartphones, tablets…) são usados para coletar informações sobre o telespectador-internauta, a pretexto de concursos. Assim é possível enviar mensagens ultrassegmentadas e contornar regulamentos que proíbem publicidade televisiva de setores como álcool, cinema ou edição. No Reino Unido, a B Sky B, operadora de televisão via satélite que pertence a Rupert Murdoch, começou em agosto campanhas publicitárias que segmentam os telespectadores assinantes em função da rua onde moram, da composição de sua casa ou de seus programas favoritos.8 Após um acordo, em setembro e outubro de 2013, com as mídias norte-americana (CNN, ABC, NBC), britânica (B Sky B) e francesa (TF1 e Canal Plus), o Facebook aceitou entregar às cadeias de televisão dados sobre idade, sexo e localização de quem comenta seus programas na rede social. Uma ferramenta interessante para refinar a segmentação publicitária e os assuntos que chamam a atenção.

Diante dessa onda dos sacrossantos data,9 os meios de comunicação lutam para defender o valor de seu espaço publicitário não apenas no suporte tradicional, mas agora também na net. Os formatos clássicos de mídia em sites, como os banners de publicidade, são menos visados. Com seus preços comprometidos pela gratuidade do conteúdo disponível na internet, eles também são ameaçados por plataformas de distribuição digital de baixo custo que reúnem diversos sites, blogs ou espaços sociais e não valorizam o ambiente editorial, mesmo que ele seja de mais qualidade.

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Essas posições de mercado são geridas pelos gigantes da internet − Microsoft, Facebook e Yahoo, por exemplo −, mas também por atores especializados. Para enfrentá-los, fato único no mundo, os meios de comunicação franceses decidiram em agosto de 2012 associar-se para montar duas plataformas automatizadas similares, chamadas ad exchanges, que colocam em relação direta compradores e vendedores na internet: La Place Média e Audience Square. Na primeira, os grupos Lagardère, TF1, Le Figaro, Amaury, France Télévisions e Marie Claire; na outra, M6, RTL, Prisma, Le Monde, Le Nouvel Observateur, Le Point e Mondadori. O objetivo é o mesmo: reunir as páginas não vendidas na internet e oferecê-las em massa ao anunciante que pagar mais. Um trabalho que exige novas habilidades das agências de publicidade: data scientist (“especialistas em dados”), arquiteto de banco de dados etc.

Assim, os meios de comunicação entraram, sob o modelo do Google e sua rede de comercialização de palavras-chave (AdWords),10 em um mundo de lances em tempo real (real time bidding) que funciona como a Bolsa, por meio de corretores on-line (trading desk). Um mundo em que o número de transações é dez vezes maior que o da Bolsa de Valores de Nova York. Em 120 milésimos de segundo, a partir do momento em que um internauta visita uma página da web, um espaço publicitário vai a leilão, e o maior lance obtém a alocação do anúncio. Esse tipo de comercialização baseado num algoritmo de leilão representa quase 15% da compra de publicidade on-line na França e 30% nos Estados Unidos.

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O paradoxo é que esse mercado, fundado na pertinência de um algoritmo, compromete o ofício tradicional das agências de publicidade, bem como de seus intermediários em consultoria e compra de espaço. De agora em diante, nada mais atrapalha a conexão quase direta entre um anunciante e sua audiência: o trabalho de segmentação já não requer a expertise dos agentes, mas se impõe automaticamente graças ao tratamento dos dados dos internautas e ao poder de cálculo das plataformas de leilão. Quem detém os dados na fonte pode vendê-los.

Para se adaptarem, as agências saídasdos grupos Publicis, Havas, WPP e Omnicom também desenvolveram suas próprias atividades detrading desk, mesmo que isso fira a Lei Sapin, de 1993, a qual proíbe que um vendedor seja também comprador de espaço publicitário. Em julho, o próprio Maurice Lévy, presidente da Publicis, anunciou a fusão de seu grupo com a norte-americana Omnicom, a fim de melhor responder à “explosão dosbig data e da análise em tempo real” e “digerir bilhões de dados para levar uma mensagem relevante a uma audiência muito restrita”.11

Quem vai sair ganhando desse jogo? O leilão do Google AdWords diz respeito a um recurso raro – a palavra cobiçada pelos anunciantes –, enquanto o dos espaços publicitários remanescentes das plataformas está focado num produto quase infinito, o que só pode puxar para baixo o preço da publicidade na internet. Nesse jogo, é ainda e sempre o Google que sai ganhando, com os ad exchanges das mídias constituindo apenas uma resposta global defensiva, sem garantia sobre os rendimentos. Na França, os investimentos publicitários gerados pelos motores de busca, de 1,2 bilhão de euros, são cerca do dobro daqueles da publicidade on-line clássica.

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Em 2020, de acordo com um estudo recente do grupo sueco Ericsson, 50 bilhões de objetos estarão conectados no mundo (La Tribune, 22 set. 2013). Essa onda que nos afoga e que vai permitir que sejamos seguidos nos menores recônditos de nossa intimidade parece ainda mais incontrolável na medida em que traz a inovação digital, novo pilar do crescimento capitalista. Mas ela só é alimentada por nossa própria tendência à “extimidade”, encorajada todos os dias nas redes sociais. “O maior perigo”, resume o blogueiro norte-americano Andrew Queen, “somos nós mesmos, os ‘Little Brothers’ que formam o ‘Big Brother’ do século XXI.”12 

BOX:

No prisma da NSA

“Um bilhão de transações registradas, 7 milhões de números de celular, 20 milhões de e-mails, 150 critérios de qualificação…” Essa relação para um “banco central de dados” não é do Prism, o programa de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana, mas da Mediaprism, filial do grupo La Poste. “Podemos saber o que você comprou em um segundo”, afirma a presidente Frédérique Agnès (Stratégies, 27 jun. 2013).

a13Do conhecimento dos hábitos de consumo à vigilância generalizada dos consumidores, é um passo. Nos Estados Unidos, o Prism, introduzido em 2007, contou com o apoio dos servidores de nove gigantes norte-americanas da internet, incluindo Google, Yahoo, Facebook, Microsoft e Apple, para acessar os dados de cidadãos estrangeiros. A agência de espionagem teria tido acesso direto às bases de dados dessas empresas.(M.B.)

Fotos: L’ombre et la Lumière/La Vetrina di Eros in Becheca/Chuchotements et Plaisir des Yeux

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil/Marie Bénilde.

1 Ler Ariane Krol e Jacques Nantel, “Pesca na banheira”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2013.

2 Agence France-Presse (AFP), 27 jun. 2013.

3 Extensão que pode ser baixada em alguns navegadores para bloquear anúncios.

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4 Alistair Barr, “Google may ditch ‘cookies’ as online ad tracker” [Google pode abandonar cookies com rastreador de anúncios on-line], USA Today, McLean, 17 set. 2013.

5 Ler Hervé Le Crosnier, “A nuvem da informação”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2008.

6 Nicolas Colin e Pierre Collin, “Rapport sur la fiscalité du secteur numérique” [Relatório sobre a tributação do setor digital], Ministério da Economia e Finanças, Paris, 18 jan. 2013. Disponível em: .

7 Ibidem, p.65.

8 Robert Budden, “A TV that knows who you are” [Uma TV que sabe quem você é], Financial Times, Londres, 31 jan. 2013.

9 Ler Kenneth Cukier e Viktor Mayer-Schönberger, “Mise en données du monde, le déluge numérique” [A transformação do mundo em dados, o dilúvio digital], Le Monde Diplomatique, jul. 2013.

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10 Ler Frédéric Kaplan, “Quando as palavras valem ouro”, Le Monde Diplomatique Brasil, nov. 2011.

11 International Herald Tribune, Neuilly-sur-Seine, 29 jul. 2013.

12 AFP, 24 jan. 2012.