Memórias de uma advogada 5

 

Por Manara

Por Manara

Na cena final do último capítulo, fui flagrada pela secretária no escritório com o meu sócio, minha saia levantada até a cintura e os seios à mostra, sendo sugados em meio a gemidos audíveis.

Não me envergonhei. Nunca fui pudica e não devo satisfações acerca de minha vida sexual, afinal. O ambiente de trabalho é excitante, embora clichê. E o meu sócio… é do tipo difícil de resistir, embora eu não quisesse mesmo fazê-lo.

Passei pela secretária na saída e perguntei se alguém me procurara, como de costume. Agi como se absolutamente nada tivesse acontecido, embora tentada a gargalhar pelo semblante de constrangimento da pobre moça.

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Enquanto dirigia até a minha casa, a lembrança da cara de espanto da secretária dava lugar à boca quente do meu sócio que eu ainda podia sentir nos meus mamilos. Aquele coito interrompido me deixara ainda mais tarada do que de costume.

Entrei em casa e me livrei mais do que rapidamente do salto alto e das roupas apertadas. No banho quente e demorado, nada me continha o delírio ao me lembrar daquela manhã. Apesar de não passar das 19h, vesti uma camisola molinha, deitei com os pés para o alto – afinal, depois de um dia tão estressante de trabalho e de um final de semana intenso, eu merecia – fechei um baseado e passei a me distrair com o celular.

Era um daqueles aplicativos de pegação – sim, eu uso. O cardápio humano era variado e divertidíssimo: homens com peitos inchados feito pombos em frente a carros conversíveis (que sabe-se lá se de fato lhe pertencem, mas, para eles, é importante fazer parecer que sim), outros com bícepes monstruosos em espelhos de academia, biquinhos, caras, bocas, descrições engraçadas e apelativas. Nenhum me chamava a atenção particularmente: aquilo era muito mais uma maneira de vislumbrar o grande circo da vida de solteira.

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Entre fotos bizarras, descrições impraticáveis e muitas gargalhadas noturnas, surgiu uma foto potencialmente interessante: uma barba por fazer, uns olhos despretensiosos e uma expressão indiferente, quase engraçada. MATCH!

Em poucos minutos eu já sabia o suficiente sobre ele: tinha uma gata de estimação, era meio nerd, ateu, sarcástico e libriano. E lindo, como eu pudera observar. Conversamos por pouco mais de uma hora sobre qualquer bobagem cotidiana, até que o desejo mútuo fosse – com a frequente rapidez das relações virtuais – confessado. “Quero te conhecer. Vamos tomar um vinho?”

Que mal havia? Eu não poderia lidar com outro coito interrompido naquela mesma noite. Não era justo. E receber um estranho em casa parecia menos apavorante porque eu sei manusear armas e tenho uma vizinhança particularmente prestativa, como se pode observar no segundo capítulo.

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Uma hora depois avistei-o pelo olho mágico. Era mais alto do que parecia, tinha uma barba castanha e um olhar estacionado exatamente entre o ingênuo e o lascivo. Aquela imagem era absurdamente excitante.

Abri a porta e nos olhamos por um intervalo de cinco segundos. Ele mapeou meu corpo sob o vestido de tecido fino e sem sutiã – propositadamente, é claro – enquanto eu checava o seu estilo interessante.

– Gosta de carmenère? – disse, estendendo-me uma garrafa de vinho.

– É o meu predileto. – e é, mesmo. Caso não fosse, eu não diria que sim só para agradá-lo. Afinal, não por acaso, ele já estava na minha sala.

Fechei outro baseado, como uma boa anfitriã. Ele observava atento enquanto comentava qualquer coisa interessante da qual não me lembro.

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– Você não acha excitante assistir alguém trabalhando com as mãos? Uma mulher fechando um é digna de uma moldura.

– Obrigada – disse, com um sorriso propositadamente safado.

Deixei que ele acendesse. Pôs o cigarro entre os lábios, meio de lado, e me pediu o isqueiro. Não me mexi durante alguns segundos. Ele riu de lado ao me ver atônita. Entreguei-lhe o isqueiro, aproveitando para sentar mais perto dele, que já se acomodara no meu tapete.

Malemolentes, meio bêbados e excitadíssimos, parecíamos capazes de conversar sobre absolutamente qualquer assunto – o que me deixava vontade, mas me interessava menos do que sentir o gosto dele.

Senti uma de suas mãos sobre a minha coxa enquanto dava a última tragada de uma maneira irremediavelmente sexy e não esperei um segundo sinal: me aproximei do seu rosto, olhei-o de perto, sorri ligeiramente enquanto sentia o seu hálito etílico. Ele sorriu de volta e mordeu meu lábio inferior, devagar e intensamente, como um autêntico libriano.

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O beijo era cada vez mais lascivo, assim como nossos pensamentos íntimos. Ele me puxou pra perto numa tentativa de sentir mais livremente o meu corpo. Sentei-me em seu colo, a sua frente, e beijava-o enquanto deixava que meus quadris seguissem o próprio ritmo. Senti sua mão sob o meu vestido, me acariciando as costas, e passeei com a língua pelo seu pescoço.

Em alguns segundos, estávamos despidos sob uma luz incandescente – céus, por que eu não me preocupara com a meia-luz? – e embora eu ainda não tivesse sido penetrada tão rápido quanto gostaria, não há outro nome para o que fazíamos: era a mais legítima foda.

Ele me deitou no tapete e se afastou alguns centímetros. Observava cada milímetro do meu corpo enquanto eu sorria, completamente tomada pelo tesão. Era proposital, tenho certeza. Percorreu o dedo, de leve, pela minha barriga, pescoço, nuca, virilha. A cada milímetro um arrepio.

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As mãos deram lugar à língua atrevida, que passava pelos meus pés e coxas, precedendo o sexo oral mais delicioso de toda a minha vida. Eu me contorcia e gemia alto, enquanto me ocorria que meu vizinho poderia estar me ouvindo – o que só me excitava ainda mais.

Com os olhos fechados, perdida no êxtasy de uma língua habilidosa, senti-o me penetrar repentinamente enquanto puxava o meu cabelo. Ele evoluiu para movimentos rápidos, desapegando da paciência de outrora para saborear o meu corpo, como se já não pudesse controlar o próprio tesão. Eu rebolava enquanto sentia a sua barriga colada na minha e o seu hálito quente e ofegante arrepiando meu pescoço.

Gozamos no mesmo instante, como que conectados eroticamente. O orgasmo concomitante é o clímax do prazer carnal, é quase um orgasmo da alma.

Recuperamos o fôlego e nos olhamos nos olhos, lado a lado. Nenhuma palavra, só o silencioso compartilhamento de prazer. Levantei, tomei mais um gole de vinho e acendi um cigarro, ainda nua apoiada no parapeito. Olhei de relance para a janela vizinha: um par de olhos familiares me observava.

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Fotos: Les deux tentatrices
Fonte: DCM/Manara

Memórias de uma advogada 4

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Na cena final do último capítulo, estou ajoelhada diante de um semi-desconhecido em quem acabara de fazer o sexo oral mais alucinante – e inesperado – da minha vida. Era uma festa com pouca luz e muita gente estranha. Fomos flagrados por uma menina quase bonita que usava o corte mais estiloso que eu já vi na vida.

Ela parecia não ligar muito. Talvez a cena fosse comum em sua vida movimentada e rodeada por pessoas essencialmente livres. Sentamo-nos de volta na sala lotada e cheia de fumaça com a naturalidade de quem não estava na gozando na varanda segundos antes.

Ele estava à minha esquerda com uma das pernas encostadas em mim. Ela, usando uma saia turquesa soltinha e as pernas finas estiradas. Trocamos olhares sugestivos entre um gole e outro – os três, numa reciprocidade quase sincronizada.

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- Vamos tomar a última lá em casa? É  aqui pertinho.

O tom da voz dela era ébrio, natural e muito safado. Entreolhamo-nos.

- Acho uma boa.

Entramos no carro e felizmente eu ainda podia dirigir, mesmo que mal. Era difícil me concentrar com uma mão insistente transitando entre minha coxa e minha virilha, mas, por sorte, o apartamento dela era a duas quadras dali.

Entramos. Havia um Merlot nos esperando (pois é, aquela noite podia mesmo ficar ainda melhor). Ele abria o vinho enquanto ela se ocupava em me beijar tão repentinamente quanto ele mesmo me fizera ajoelhar horas antes.

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Ela tinha mãos delicadas e habilidosas e um beijo quente e feminino. Tocava meus peitos por cima da blusa enquanto passeava a própria língua por cada centímetro da minha boca. Quando abrimos os olhos, ele estava parado, com o vinho em uma das mãos e o pau visivelmente duro. Não esperou o convite e sentou-se conosco no sofá. Serviu o vinho. Bebi um gole enquanto os olhava, imóvel, com um sorriso de canto.

Ele tirou a taça da minha mão – em outras circunstâncias, eu consideraria isto completamente ofensivo – puxou meu cabelo, me olhou firmemente durante precisos três segundos e me beijou com sede. Puxou-me mais para perto. Sentei em seu colo, com as pernas abertas, de frente pra ele. Nos beijávamos enquanto eu cavalgava, ainda vestida, e a anfitriã se divertia com a cena. Mas ela precisava se divertir mais.

Levantei e tirei sua blusa. Ela tinha peitos grandes, muito brancos com auréolas rosadas. Passei a sugá-los enquanto ele a masturbava por cima da calcinha de algodão e ela gemia baixinho com a expressão mais safada que eu veria naquela noite.

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Eu não podia lidar com a dimensão do meu tesão. Gozaria ao menor estímulo. Ele tirou a camisa e nós duas – juntas – cuidamos do resto até que pudéssemos vê-lo nu em pelo na nossa frente. Conduzi-a gentilmente para que ela provasse o pau que eu provara mais cedo – e ela o fez com maestria. Ajoelhamos, ambas, na sua frente, e ele tinha uma expressão (que hoje parece patética, mas, naquele momento, era excitante) de rei do harém. Ele revezava o próprio prazer em nossas bocas.

Levantei e sentei para assistí-los. Ela parecia preferir mulheres, mas se divertia. Ao perceber que eu me masturbava gostosamente diante do espetáculo que eles mesmos protagonizavam, ele veio em minha direção e segurou o meu rosto pela segunda vez naquela noite, fazendo com que eu me virasse de costas. Ela era do tipo participativa, e posicionou-se estrategicamente perto da minha boca.

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O momento em que ele colocou a camisinha pela primeira vez não estragou o clima, porque eu me ocupava chupando-a. Enquanto seus gemidos incontidos ecoavam pela sala à meia-luz, senti-o me penetrar abruptamente enquanto puxava meu cabelo. Ela gozou primeiro, gostoso, na minha boca, e se afastou alguns centímetros, talvez pela sensibilidade pós-orgasmo, mas eu ainda podia vê-la escorrer, de muito perto, enquanto ele me comia.

Ao abrir os olhos depois do meu próprio gozo, notei que ela me olhava com uma expressão atenta e excitante. Ele pediu que nos ajoelhássemos de novo, juntas. Obedecemos. Nossos rostos estavam juntos, nossos corpos, nus, se misturavam no assoalho de madeira. Ele dividiu o gozo entre nossas bocas e nossos seios.

Não terminamos o vinho. Eu tinha pressa. Me despedi, deixei-os sozinhos e saí madrugada adentro, em direção à casa da minha amiga, onde era esperada. O dia seguinte seria de retorno à minha rotina maçante – mas não exatamente monótona – no escritório.

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Fotos: Artistic Smut
Fonte: Diário do Centro do mundo – DCM/Anônima

 

Memórias de uma advogada 3

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No último capítulo  conheci muito de perto meu novo vizinho. Ele me ajudou com uma porta trancada e saciou o desejo curioso que me despertara desde que nos conhecemos. Eu deixei claro que sabia que ele era casado na sua saída, enquanto sua esposa surpreendentemente nos observava pela janela.
Depois do episódio no mínimo curioso, passei a observar atenta o jovem casal. Pareciam vívidos, felizes, joviais. E liberais, assim eu esperava. A esposa aparentava vinte e poucos anos bem vividos. Era morena, os cabelos ondulados, escuros e pesados, um molejo de quem conhece a vida.
Trocamos alguns sorrisos de cortesia que escondiam segredos que nossas bocas não contavam. E não contarão, ao menos não neste ponto.
Minha casa já estava satisfatoriamente organizada. Era hora de voltar a viver de verdade: livre como gosto de ser. Resolvi viajar para a casa de uma amiga em Floripa. Praias bonitas, corpos dispostos, festas permissivas: tudo o que eu mais gosto no mundo estaria lá.
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Ela me esperava com uma cerveja gelada.
“Vá se vestir, use aquela blusa de Capitu!”
Era uma camiseta com os dizeres “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Os meus olhos. Combinei-a com um saia curta, solta e confortável. Fomos a uma reunião no estúdio de tatuagens em que a minha amiga trabalhava.  Era um ambiente tão sensual que beirava o sombrio. Luz baixa, muitas referências de cinema e quadrinhos, desenhos criativos estampados nas paredes de uma sala minúscula… e pessoas. Muitas pessoas.
Uma moça no canto da sala, sentada no chão, com um corte de cabelo estiloso; alguns homens tatuados, com camisetas surradas e cabelos fora dos padrões. Atraentes, em geral. Sorriram-me e cumprimentaram-me. Abrimos a primeira cerveja. 8,9% de álcool: aquela noite não seria uma qualquer.
Alguém me passou um baseado de boas-vindas. Aquelas pessoas pareciam transcender a um nível que eu só alcançaria algumas horas depois. A conversa era solta e leve, ninguém parecia deixar de dizer o que lhe viesse a cabeça. Resolvi ir à janela acender um cigarro. Tragava enquanto ouvia o murmúrio sonoro das pessoas na sala, até sentir uma sombra alcançar o meu corpo. Era uma presença masculina. Os cabelos na altura da nuca, os olhos maliciosos e negros demais. Um corpo quase delicado.
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“É aqui a área da fumaça?”
Sorri de canto e traguei como resposta. Ele parou perto de mim – perto demais:
“Você tem um isqueiro?”
Em vez de responder, acendi o seu cigarro olhando-o nos olhos e cheguei ainda mais perto. Esperava que ele entendesse o recado. Conversamos qualquer coisa aleatória de que não me lembro mais, até que o ponto alto da noite chegasse.
Ele lançou o próprio corpo contra o meu, lento, mas com uma agressividade medida e pensada, e escorregou uma de suas mãos pelo meu corpo. Tocou meus seios enquanto me olhava com uma expressão dominadora – e enlouquecedora, a propósito. Homens que sabem molhar a calcinha de uma mulher sem usar a língua merecem um lugar especial no céu. Ou no inferno.
Passeou novamente pelo meu corpo, por debaixo da minha saia solta, sem desviar o olhar cafajeste por um minuto sequer. A porta aberta e a possibilidade de sermos flagrados me excitava. Beijei-o furtivamente, e, uma correção: aquilo não foi um beijo. Fui eu lambendo os lábios dele.
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Era mais animalesco que um beijo qualquer.
Ele usou a mão que não estava ocupada descobrindo minha calcinha pequena para empurrar o meu rosto, apertando meu queixo e interrompendo meu beijo lascivo. Não entendi muito, mas achava delicioso ser dominada por um quase desconhecido. Sem nenhuma palavra, puxou meus cabelos fazendo-me ajoelhar em sua frente – e neste ponto eu sequer pensava na porta aberta e nas pessoas na sala – e me fez engolir cada centímetro do seu pau. Não pediu licença para me fazer engolir sua porra. Não me deixou esquivar – embora eu não quisesse mesmo fazê-lo.
Eu ainda estava ajoelhada, estupefata e excitadíssima com tamanha ousadia, quando a moça de corte estiloso apareceu na porta e esboçou uma expressão safada e sem o menor resquício de espanto. Ele abotoou as próprias calças, olhou-a e sorriu, cúmplice. Voltamos para a sala e nos sentamos juntos, muito perto da moça. Entre um gole e outro, ela nos olhava mais do que todos os outros.
A noite só estava começando.
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Fotos: Artistic Smut
Fonte: Diário do Centro do mundo – DCM/Anônima

Memórias de uma advogada 2

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Anteriormente: minha amiga e eu havíamos feito talvez a grande descoberta sexual de nossas vidas: éramos capazes de sentir prazer sem um homem. Mas com um, confesso, era incomparavelmente melhor. Eu continuaria, portanto, com aventuras heterossexuais – só que com o plus da descoberta de que mulheres também são capazes de me satisfazer plenamente. 

Eu finalmente decidira me mudar. Sair de um apartamento minúsculo e barulhento no centro da cidade para um prédio charmoso numa rua tranquila realmente me parecia uma boa ideia.

Cheguei à casa nova e cheia de caixas entulhadas e fui recebida pelo novo vizinho.

Ele era filho do dono do apartamento que eu alugara. Era daqueles que ganham a sua simpatia numa conversa de cinco minutos. Era alto e tinha no máximo trinta anos – pelo que supus, porque não ousei perguntar – e com algumas dezenas de tatuagens espalhadas pelo corpo definido e uns olhos amendoados que me deixaram com uma incontrolável expressão tarada – que ele notou, porque era realmente tão esperto quanto parecia.

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Deu-me as boas vindas como um bom anfitrião, se dispôs a me ajudar caso eu precisasse de algo e voltou ao seu apartamento, bem em frente ao meu. Era uma boa vizinhança, pensei.
Era hora do almoço e eu precisava descobrir o que havia por perto para uma jovem que mora sozinha e é mal-sucedida na cozinha.

Usava um vestido velhinho, daqueles que de tão usados se ajustam ao nosso corpo e os cabelos castanho-claro presos num coque bagunçado (como a minha vida). Fechei a porta e notei que não pegara a minha bolsa – e nem as chaves do apartamento. Estava presa do lado de fora. Parece que eu precisaria da ajuda do vizinho simpático mais cedo do que ele podia imaginar.

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Bati à sua porta com uma expressão meio marota, meio envergonhada. Ele abriu sorridente:

– Oi, vizinha. Tudo bem por aí?
– Então, não. Eu consegui trancar o apartamento com as chaves dentro no meu primeiro dia de estadia. Você tem uma cópia?
– Relaxa, eu resolvo isso pra você.

Passou por mim, mais perto do meu corpo do que o necessário, subiu no parapeito da varanda e pulou habilidosamente a minha janela. Abriu a porta e se deparou com a minha cara de surpresa diante de tamanha eficiência.

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Almocei num restaurante charmoso na rua de casa enquanto pensava em quantas situações eu gostaria que aquele homem pulasse a minha janela. Aquilo mexeu mais comigo que os seus olhos amendoados.

Passei os próximos dias perdida entre a bagunça da minha sala e o tesão descomunal pelo meu novo vizinho. Vez ou outra via-o através da janela lateral, sempre nu da cintura pra cima. Cumprimentava-o cortesmente enquanto queria bater na sua porta e conseguir mais do que uma xícara de açúcar.

Num dia particularmente cansativo de jornada dupla no escritório e com a arrumação da mudança, pus uma música gostosa, acendi um cigarro e me debrucei na janela. Avistei-o e, no primeiro trago, ele se deu conta de que eu estava de calcinha e camiseta branca.

Olhou satisfeito e sorriu maliciosamente. Dei de ombros e virei-lhe as costas, tão propositalmente quanto era capaz. Peguei uma taça de vinho e voltei à janela. Passamos alguns minutos numa comunicação não verbal de olhares e sorrisos. Não havia o que pudesse ser dito. Vi-o sumir da janela e ouvi três batidas decididas na porta. Eu já sabia a que ele vinha.

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– Você tem outra taça desse vinho?

Fiz que sim e fui buscar, sem o menor desconforto pelos meus trajes. Senti seu olhar me perfurando. Cheguei muito perto e entreguei-lhe a taça. Nossas bocas estavam agora a alguns centímetros uma da outra, e eu resolvi me demorar ali. Ele me deu um beijo lento, daqueles que desbravam cada centímetro da língua, enquanto me puxava para o seu corpo e percorria as minhas costas por debaixo da camiseta. Pôs as taças sobre a mesa – como quem já se sente em casa – virou-me contra a parede e mordeu forte e lentamente o meu pescoço, enquanto tirava meus cabelos de seu caminho ora com força, ora com delicadeza.

– Eu sabia o que você queria.

Ele sabia mesmo. Afastou meu notebook e me fez sentar na minha mesa de trabalho. Ela tinha a altura perfeita, como se tivesse sido feita pra isso. Cruzei as pernas em torno de seu corpo e puxava-o contra a minha boceta enquanto nos beijávamos como se não houvesse uma janela aberta bem na nossa frente. Ele afastou minha calcinha de algodão para o lado, abriu minhas pernas tanto quanto era possível e me invadiu com uma língua quente e habilidosa. Eu me contorcia e gemia incontidamente, até gozar enquanto pressionava seu rosto na minha boceta.

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Aquele gozo o despertou ainda mais – mesmo que isso parecesse realmente impossível depois de tanto tesão – e ele desabotoou a calça e me penetrou forte e de uma só vez, como um animal instintivo e apressado, até que eu sentisse seu gozo quente entre minhas pernas. Ficamos ali alguns segundos, imóveis e ofegantes. Empurrei-o sutilmente para sair de seus braços, peguei um copo d’água e quebrei o silêncio:

– Foi incrível, mas acho que preciso dormir. Não foi um dia fácil. Se importa em ir agora? Sua mulher deve acordar a qualquer momento.

Ele esboçou uma expressão de espanto – porque certamente pensou que seu casamento fosse um segredo pra mim. Bem, não era. E isso não me incomodava, ao contrário, me excitava ainda mais.

– Claro, linda. Boa noite. – disse, com uma naturalidade perspicaz.

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Beijou-me a boca despretensiosamente, como se não tivéssemos acabado de protagonizar uma transa insana, e se despediu.

Sorri ao vê-lo sair pela porta. Não queria um estranho na minha cama. Nenhuma intimidade além daquela que o próprio sexo proporciona.

Acendi outro cigarro e vi sua jovem esposa me olhar pela janela com um olhar que eu não conseguia – e não queria – decifrar.

Fotos: Desires of a Bi-Sexual Women
Fonte: Diário do Centro do Mundo-DCM/Anônima

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Minhas paixões de cada signo

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Esses dias conheci um ARIANO e me apaixonei. Delicado como um rinoceronte, ele logo me mandava à merda por qualquer tentativa de drama e utilizava aquele método infalível de resolução de brigas na cama. E como gostava de brigar. Arrumava encrenca na mesma frequência com que eu tomo pingado e ai de quem ousasse dizer que ele estava errado. Ficava irado. Não dava a mínima para os outros e tinha energia para mover uma montanha se precisasse. Eu gostava dele. Pena que ele descobriu. Se eu não tivesse falado, talvez o amor não tivesse acabado.

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Conheci um TAURINO. Saímos para jantar. Saímos para almoçar. Saímos para tomar café-da-manhã, brunch, chá da tarde e ceiar. Nunca comi tão bem. Ele sim sabia viver: comer, beber, dormir, transar. Ele queria ter prazer todos os dias da vida, nenhum podia faltar. A vida ao lado dele era ótima até ele começar a teimar. Teimava feito mula; não touro. Era possessivo e não mudava. Senti falta dele mas precisei terminar. Vai que ele decidia me amarrar.

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Eis que me encantei por um GEMINIANO. Ele falava, falava, falava sem parar. Ainda assim nunca entendi o que ele pensava. Acho que nem ele mesmo se entendia. Estava sempre pensando em uma opinião para mudar. Era a alegria em pessoa e contagiava minha vida. Pena que mudou de opinião rápido demais e foi espalhar alegria em outro lugar. Só acho que não custava avisar.

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Saí meia dúzia de vezes com um CANCERIANO e ele logo falou em casar. Me apresentou para a mãe e disse que pretende morar sempre com ela, nunca a deixar. Me assustei mas achei fofo. Ele era romântico e cuidadoso: queria mesmo me mimar. Fazia drama por quase tudo e eu me vi obrigada a partir quando ele quis que eu assinasse um contrato me comprometendo a nunca terminar. Coisa difícil de jurar.

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Avistei um LEONINO e me apaixonei à primeira vista. Tão discreto quanto um javali de saia, só ele queria brilhar. Era o centro de tudo, era o centro do mundo e eu estava ali só para admirá-lo reinar. Era a generosidade em pessoa. Fazia tudo para conquistar mais um admirador para o seu bando e o amor só acabou quando eu, num instante de insanidade, pensei na estranha possibilidade de liderar.

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Comecei a sair com um VIRGINIANO e morria de medo de me sujar. Ele corrigia qualquer verbo conjugado às pressas, reparava em unhas descascadas, roupas amassadas e assim que me via, vinha me cheirar. Ele era ótimo. A retidão em pessoa. Fazia tudo certinho e o amor só acabou no dia em que eu derrubei shoyu numa calça branca e ele ficou com agonia até de olhar.

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Me apaixonei por um LIBRIANO e descobri que metade do mundo também. Ele era lindo, simpático e charmoso e eu até fingia não ver o telefone dele tocar porque ele fazia de tudo para me agradar. Era a diplomacia em pessoa. O amor só acabou porque eu pedi para ele escolher um restaurante para a gente jantar. Ele ficava confuso com esse negócio de escolhas. Estou esperando até agora ele me ligar.

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Conheci um ESCORPIANO e nem sei por onde começar. A gente mal se conhecia e ele já sabia o nome e o RG de todos os meus ex-namorados. Era perito em stalkear. Tinha ciúme até da sombra mas no começo fingia nem ligar. Tinha casca grossa, coração mole e pensava o tempo todo em transar.  Queria sossego mas não conseguia desestressar. Tive que deixá-lo porque já estava cansada de lembrar da briga da primeira semana. Ele não consegue esquecer. Liga até hoje para me xingar.

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Esbarrei com um SAGITARIANO e me encantei pelas piadinhas sem graça e o jeitinho sexy sem ser vulgar. Ele era incrível. Só pensava em viajar. Estava a cada hora em um lugar. Vivi aventuras incríveis ao lado dele e não sei porque caí na besteira de pedir para ele sossegar. Vai ver foi por isso que ele decidiu terminar.

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Conheci um CAPRICORNIANO e me apaixonei por tamanho foco e responsabilidade. Ele era curto, grosso e objetivo: só pensava em trabalhar. Fazia planos. Tabelas. Planilhas. Fazia contas até para o bate e volta no Guarujá. Um dia pedi um dinheiro emprestado e ele sumiu. Já arrumei o dinheiro. Estou esperando ele voltar.

112Me encantei por um AQUARIANO exótico com quem cruzei por aí. Ele se vestia da maneira como bem entendia e vivia em um mundinho particular. Era divertidamente apaixonante mas nem ele sabia o que queria. Dizia que tinha medo de se envolver e era perito em não me responder. Só sei que tudo ia muito bem até que eu mandei uma mensagem e estou há uns 2 anos esperando ele visualizar. Vai entender.

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Por fim conheci um PISCIANO. Sensível como ele só, fazia caridade e tinha uma baita espiritualidade. Sonhava acordado sem parar e vira e mexe eu tinha que gritar: “volta pra Terra, meu filho, para de viajar.” Se distraía nos próprios sonhos e era a pessoa mais bondosa do mundo. Só tive que terminar porque ele se distraía, me deixava falando sozinha e sabe como é: às vezes é bom ter alguém na Terra para conversar.

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Brincadeiras à parte, só sei que sou grata às diversões que todas as paixões já me proporcionaram e me alegro genuinamente por ter aprendido tantas coisas interessantes com as individualidades de cada ser humano com quem já compartilhei meu tempo. Quero continuar a me apaixonar e a me entregar porque no fim das contas o importante é isso: rir das nossas experiências e carregar conosco só o melhor do que as pessoas puderam proporcionar. Mesmo os arianos. (É só brincadeira. Não precisam brigar.) Hahahaha

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Fotos: Les deux tentatrices/SwannSong’s Erotica/Tʜє ᗯɪʟᴅ Sɪᴅє
Fonte: Entenda os homens/Eduarda Costa