Agora o Obama se rasga todo

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O Brasil formalizou uma parceria com uma empresa espanhola para construir e operar um novo cabo submarino de fibra ótica para transmitir dados de internet entre o país e o continente europeu. A proposta de criação de uma empresa de capital misto foi aprovado nesta semana pelo Conselho de Administração da Telebras. A estrutura, que deve ficar totalmente pronta até 2016, deve custar US$ 185 milhões.

A JVCo (Joint-Venture Company) será uma empresa brasileira, com participação acionária de 35% da Telebras e 20% de fundos de investimentos, além de 45% da espanhola IslaLink Submarine Cables. As operações para a instalação do cabo devem começar já no segundo semestre deste ano. A previsão da Telebras é de que a estrutura entre em operação 18 meses após o início das obras, segundo informou o presidente da Telebras, Francisco Ziober Filho, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (15).

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Atualmente, o Brasil está conectado ao exterior por meio de cinco cabos submarinos, mas apenas um deles vai para a Europa. Os demais ligam o país aos Estados Unidos. A expectativa é que a adesão de mais uma conexão ajude a baratear os serviços de internet no país, além de ampliar a capacidade de transmissão de dados. O governo também considera o novo cabo um projeto estratégico em relação à segurança digital, minimizando a interferência dos Estados Unidos nas comunicações.

A Telebras também anunciou um pré-entendimento com as empresas Silica Networks Argentinan S.A. e Silica Networks Chile S.A. para construir, operar e manter uma rede de fibra ótica para estabelecer uma conexão entre o Brasil e a Argentina. A conexão vai da cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, até a cidade de Paso de Los Libres, província de Corrientes. O cabo ainda teria uma ligação direta ao Chile, abrindo acesso às redes na costa do Oceano Pacífico.

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Fotos: Internet

Fonte: Jornal GGN/Telebras/Olhar Digital

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Dados do internauta revoluciona publicidade

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Enquanto a espionagem de dados pelo governo norte-americano provoca protestos, as empresas aperfeiçoam as técnicas que lhes permitem seguir os internautas. Elas são ajudadas pela multiplicação de informações pessoais na rede. Assim, escapar das mensagens publicitárias torna-se uma corrida com obstáculos.

“Uma Guinness, John?”, “Estressado, John Anderton? Precisando de umas férias?”. Interpretado por Tom Cruise, o herói de Minority Report não consegue dar um passo sem ser assediado por mensagens publicitárias personalizadas brilhando em telas à sua frente. A ação do filme se passa em 2054. Seu diretor, Steven Spielberg, não deve ter imaginado, durante as filmagens, em 2001, que muitas das invenções encenadas na obra seriam realidade dentro de dez anos. Objetos conectados à internet, telas sensíveis ao toque, interfaces gestuais, reconhecimento de voz, jornais eletrônicos atualizados em tempo real,outdoors digitais capazes de reconhecer o espectador pelo rastreamento do olhar (eye tracking)… Todas essas tecnologias já são vividas cotidianamente e fazem a indústria da publicidade se reinventar.

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O Google promete comercializar no próximo ano o Google Glass, óculos que permitem consultar uma página web ou clicar em e-mails apenas inclinando a cabeça. Com uma conexão sem fio, um indivíduo poderá entrar num aeroporto e ver no vidro de seus óculos não apenas a indicação do caminho para a área de check-in, mas também o número de seu voo e a hora do embarque. O outro lado dessa façanha tecnológica é fácil de imaginar: nada daquilo que você vai ver poderá escapar ao gigante californiano – o que você faz, os lugares que frequenta, os produtos que consome, as pessoas que encontra…

Houve um tempo em que a humanidade consumidora se dividia em tantos alvos quanto fosse o público a seduzir através dos meios de comunicação de massa. Esse tempo passou.1 Servidores utilizados para fins publicitários agora identificam nossos interesses, nossas ligações em redes sociais, nossos gostos culturais, os lugares que visitamos ou onde fazemos compras. Em suma, mesmo que não se trate jamais de cadastrar oficialmente uma população, a segmentação pode ser tão precisa que, mesmo sem conhecê-lo pelo nome, uma marca é capaz de saber tudo sobre um consumidor.

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Como constata Hervé Bazot, presidente da associação UFC-Que Choisir, estamos observando uma “captação tentacular, sem transparência, e uma utilização ao infinito de dados pessoais”.2 Porém, na França, a Lei Informática e Liberdades, de 1978, dispõe a garantia da transparência e da informação prévia a qualquer pessoa que seja cadastrada. E se os dados vierem a ser arquivados, há um limite de tempo para se manterem armazenados.

Medo de uma legislação muito dura

Mas é impossível saber por quanto tempo Google, Facebook, Yahoo e outros ficam com os nossos dados. A União Europeia aprovou uma norma, em 1995, para garantir a proteção das informações de caráter pessoal, reformulando a exigência em 2009, por ocasião de outra norma chamada “Pacote Telecom” – retranscrita na França por um regulamento de 24 de agosto de 2011; mas ela luta para conseguir aplicar um texto que deve ser transposto em direito em cada um dos 28 Estados-membros. Então, em janeiro de 2012, Bruxelas aprovou um regulamento de aplicação direta para evitar as múltiplas interpretações.

Enquanto os gigantes da internet se defendem argumentando que dispõem de dados anônimos, a Comissão Europeia tende a considerar que o IP – sigla para Internet Protocol, ou seja, a identidade do computador – é um elemento que conduz ao estabelecimento de dados pessoais. Portanto o consumidor deve estar ciente de que tais dados são coletados, por quanto tempo e aprovar sua utilização para fins publicitários. Esse texto regulamentar, que deve ser apresentado ao Parlamento Europeu no final de 2013, já resultou na diligente apresentação de 4 mil emendas pelos lobistas. Ele deverá ser votado na Comissão até a metade de 2014, para ser aplicado em 2016.

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Hoje, apenas o fornecimento de dados de geolocalização passa por um pedido de acordo prévio por parte dos fornecedores de aplicativos móveis. Mas o mobinauta hesita cada vez menos em se deixar localizar, uma vez que esse é o único meio de acessar os serviços de proximidade (“perto de mim”), como encontrar um restaurante, um terminal de bicicletas, uma estação de metrô etc. E a concordância do usuário nem sempre é solicitada. Segundo um estudo realizado pela Comissão Nacional de Informática e Liberdades (Cnil) e pelo Instituto de Pesquisa em Informática Aplicada (Inria), divulgado em abril de 2013, 31% dos 189 aplicativos testados por três meses no i-Phone avançam automaticamente para a geolocalização do mobinauta, e 8% para seu catálogo de endereços. A Apple torna obrigatória a presença de um identificador com fins de segmentação publicitária para qualquer usuário do sistema operacional IOS 6. O código é utilizado para armazenar os hábitos de navegação, na forma de cookies.

Cookies? Esses pequenos arquivos-robôs que acompanham nossa navegação na web tornam a publicidade na internet particularmente eficaz. De acordo com o relatório da senadora francesa Catherine Morin Desailly, contam-se em média trezentos deles armazenados em um navegador da internet (Explorer, Safari, Mozilla…).

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Em março de 2013, o grupo das Cnils europeias, chamado G29, publicou recomendações a fim de limitar ao mínimo estrito o acesso aos dados pessoais dos usuários. Ele recomenda que se usem identificadores temporários e, especialmente, que os usuários sejam informados sobre os dados coletados, ou ainda que se peça seu consentimento antes de realizar qualquer rastreamento publicitário. Essa opção, conhecida como opt-in, que permite ao usuário o controle real dos dados que fornece, é rejeitada pelo lobby da publicidade on-line. Este, representado na Europa pelo Internet Advertising Bureau (IAB), prefere o opt-out, que implica um procedimento ativo de saída do internauta. Assim, o IAB criou a plataforma Youronlinechoices.eu, que envia o usuário para uma página de desativação de arquivos espiões. Para acessá-la, o internauta é convidado a clicar em uma aba na qual se propõe – na cor verde – “aceitar todas as empresas” enviandocookiesou – em vermelho – “rejeitar todas as empresas”.

Mesmo antes de você clicar na opção em vermelho, o Google já passa a se comunicar apenas em inglês e o eBay adverte que “anúncios continuarão a aparecer, mas poderão ser menos pertinentes”. Uma vez ativado o fatídico botão, o Yahoo explica que “a ferramenta não conseguiu conectar-se a todas as empresas” e que o problema é provavelmente causado por “pluginsde bloqueio publicitário do tipo AdBlock Plus3 [que] podem inviabilizar as desativações”.

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Já o MSN, portal da Microsoft, prefere confundir o internauta com a aba “Escolher seus anúncios”, enviando-o para uma área “Saber mais”, que contém uma declaração de confidencialidade. Lá, somos lembrados de que os cookiesservem para “ativar algumas funcionalidades de pesquisa”. E embora seja oferecido um link para “Nossa página de recusa de anúncios”, o internauta volta para a página inicial, após um percurso que o direcionou de “Outras coisas que você deve saber” para “Mostrar anúncios” e em seguida a uma “Página de saída”, levando a um impasse.

É necessário então um controle sobre os navegadores? A Digital Advertising Alliance – federação de agências de segmentação, anunciantes e meios de comunicação norte-americanos, como TimeThe Washington Poste o grupo Conde Nast, que representa 90% da publicidade segmentada na internet nos Estados Unidos – prega a autorregulação. No final de 2012, seus quatrocentos membros comprometeram-se a não rastrear os internautas que pedissem isso em seu navegador. O Mozilla, que opera no modelo “livre”, anunciou em fevereiro que iria estabelecer como padrão o bloqueio de cookiescomerciais no navegador Firefox e foi o primeiro a propor a “Navegação privativa” (“Do not track”). Em seu rastro vieram o Internet Explorer (Microsoft), o Safari (Apple) e finalmente o Chrome (Google), adotando dispositivos similares. É preciso dizer que a simples menção pelo governo Obama, em 2012, de um projeto de “Carta para a proteção dos dados dos consumidores”, antes de ser votada uma lei no Congresso, levou os atores da publicidade a dar mostras de boa vontade para evitar uma legislação mais dura.

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Mas essas soluções estão longe de ser perfeitas. Primeiro porque as empresas de segmentação publicitária conseguem obter informações de navegação sem o conhecimento do internauta, por meio do “cache”, memória informática que armazena temporariamente cópias de dados para reduzir o tempo de acesso ao conteúdo. Isso não é possível em qualquer lugar – especialmente não no Firefox –, mas no Safari é.

Quanto ao sistema de “navegação privativa”, a Cnil destacou que ele só estaria em conformidade com o direito de confidencialidade reconhecido pela norma europeia transposta na França no final de 2011 se fosse habilitado como padrão nos computadores. Um caminho categoricamente recusado pelos gigantes da publicidade, que muitas vezes são também os fabricantes norte-americanos desses programas de navegação. Por ora, continua a oposição entre a Europa que opta pela adesão (opt-in) e os Estados Unidos que optam pela saída (opt-out).

Um anúncio de máquina de lavar roupas invadiu todos os sites que você visita desde que fez uma pesquisa para saber o preço dos modelos existentes? Esse é um sinal de que você está sendo rastreado por meio dos famosos cookies. Mas, para se adaptar aos usuários resistentes que ainda apagam cookies e aplicativos móveis que não os utilizam, alguns integrantes do setor já estão no pós-cookies. Eles apostam principalmente na tecnologia de impressão digital, estabelecida com base nos vestígios deixados pelo navegador ou pelo próprio aparelho. É o que preocupa a Criteo, bem-sucedida companhia francesa que pretende entrar no Nasdaq: ela segmenta os internautas a partir dos cookies, que, com os novos métodos de rastreamento, poderiam ser rejeitados, no futuro, pelo navegador Chrome do Google.4

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O Google, aliás, tornou-se um especialista de segmentação em função do contexto editorial, por meio do programa AdSense: ele envia anúncios baseando-se na temática da página da web visitada. Ou por meio da comercialização de links patrocinados em resposta a pesquisas no programa de busca, ou ainda em função de palavras encontradas nas contas do Gmail – por exemplo, um anúncio sobre “Férias no Marrocos”, se um e-mail em sua caixa postal menciona esse país.

A essa segmentação contextual e comportamental soma-se uma nova dimensão, fundada na interação social. Ainda menos transparente que o Google sobre o uso de dados pessoais, o Facebook explora informações fornecidas voluntariamente por seus membros aos “amigos”. Faixa etária, cidade, interesses, profissão… A isso se acrescentam os “amigos” geolocalizáveis dos usuários da rede social. “Nossos catálogos de endereços são totalmente varridos pelo Facebook por meio de nosso telefone celular ou e-mail, e uma identificação biométrica padrão permite reconhecer logos e fotos de rostos sem que o contribuinte tenha dado permissão explícita”, diz a associação Internet sem Fronteiras (AFP, 18 maio 2012).

Promoção por um “like”

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Em 2007, o Facebook foi obrigado a desculpar-se pelo programa Beacon, que alertava a comunidade de “amigos” sempre que um dos membros fazia uma compra on-line. Hoje, a publicidade dá lugar à recomendação “social”. O internauta que clica em “Curti” e vira fã de uma marca compartilha automaticamente a notícia com toda a sua rede. “A exposição a uma marca ‘curtida’ por um ou mais amigos quadruplica a intenção de compra dos usuários expostos a esses anúncios”, indica Matthieu de Lesseux, presidente da DDB Paris (Challenges, 5 abr. 2012). O anúncio aparece no feedde notícias (linha do tempo), entre os elementos publicados pelos “amigos”. O Twitter também insere mensagens patrocinadas nessa área reservada normalmente para as contas selecionadas pelo usuário. Um anúncio qualificado de “nativo”, já que nasce no mesmo fluxo de informações.

A comunidade “amiga” pode saber o que o usuário está ouvindo, por meio do serviço de música on-line Deezer; o que ele lê, graças a parcerias com jornais; e o que deseja comprar. “Pouquíssimos usuários compreendem totalmente – e muito menos controlam – a exploração dos dados utilizados para impulsionar a atividade publicitária do Facebook”, destaca Jeff Chester, diretor do Centro para a Democracia Digital (AFP, 1o fev. 2012). Basta clicar no botão “Facebook Connect” para que a rede social forneça a terceiros as informações sobre a identidade de um cliente. Os termos de uso da rede, que muda regularmente seus parâmetros de confidencialidade, são geralmente ilegíveis. Seus data centers, aliás, os parques de servidores que armazenam esses dados, também são de propriedade da gigante californiana, escapando a qualquer controle das autoridades estrangeiras.5

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Poderíamos pensar que os mastodontes da internet que vivem da publicidade não nos custam nada. Isso não é verdade: eles nos custam nossos dados. Um valor total estimado em 315 bilhões de euros no mundo em 2011, ou seja, 600 euros por indivíduo, de acordo com o Boston Consulting Group. Uma riqueza fornecida pelos próprios internautas, que se tornam “quase funcionários, voluntários, das empresas”, como escrevem Nicolas Colin e Pierre Collin em um relatório sobre a tributação na era digital.6Localizados em terras de asilo europeias, subtraídas da economia real por meio de sistemas de evasão em paraísos fiscais, esses gigantes praticamente não pagam impostos sobre as empresas, ou escapam da taxa sobre valor agregado (TVA). Para um montante de 2,5 bilhões a 3 bilhões de euros de volume de negócios na França, as empresas Google, Apple, Facebook e Amazon pagam apenas 4 milhões de euros, “quando poderiam pagar 500 milhões de euros, se o sistema tributário lhes fosse plenamente aplicado”, de acordo com um parecer de 14 de fevereiro de 2012 do Conselho Nacional do Digital.7

Os grandes atores norte-americanos da internet desestabilizam o mercado publicitário. Enquanto suas receitas explodem, as dos meios de comunicação tradicionais não param de cair. Entre 2007 e 2012, na França, o mercado publicitário passou de 4,8 bilhões para 3,2 bilhões de euros para a imprensa, e de 3,6 bilhões para 3,3 bilhões de euros para a televisão. Mas as mídias tradicionais financiam a criação de conteúdo: obras de ficção, filmes cinematográficos, documentários, entrevistas, reportagens… Do 1,8 bilhão de euros em receitas de publicidade on-line – incluídos os links patrocinados –, só o Google captou cerca de 1,5 bilhão de euros na França.

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Espaços leiloados

A televisão tenta revidar, criando seus próprios serviços de publicidade individualizados. Na França, aplicativos para segunda tela (smartphones, tablets…) são usados para coletar informações sobre o telespectador-internauta, a pretexto de concursos. Assim é possível enviar mensagens ultrassegmentadas e contornar regulamentos que proíbem publicidade televisiva de setores como álcool, cinema ou edição. No Reino Unido, a B Sky B, operadora de televisão via satélite que pertence a Rupert Murdoch, começou em agosto campanhas publicitárias que segmentam os telespectadores assinantes em função da rua onde moram, da composição de sua casa ou de seus programas favoritos.8 Após um acordo, em setembro e outubro de 2013, com as mídias norte-americana (CNN, ABC, NBC), britânica (B Sky B) e francesa (TF1 e Canal Plus), o Facebook aceitou entregar às cadeias de televisão dados sobre idade, sexo e localização de quem comenta seus programas na rede social. Uma ferramenta interessante para refinar a segmentação publicitária e os assuntos que chamam a atenção.

Diante dessa onda dos sacrossantos data,9 os meios de comunicação lutam para defender o valor de seu espaço publicitário não apenas no suporte tradicional, mas agora também na net. Os formatos clássicos de mídia em sites, como os banners de publicidade, são menos visados. Com seus preços comprometidos pela gratuidade do conteúdo disponível na internet, eles também são ameaçados por plataformas de distribuição digital de baixo custo que reúnem diversos sites, blogs ou espaços sociais e não valorizam o ambiente editorial, mesmo que ele seja de mais qualidade.

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Essas posições de mercado são geridas pelos gigantes da internet − Microsoft, Facebook e Yahoo, por exemplo −, mas também por atores especializados. Para enfrentá-los, fato único no mundo, os meios de comunicação franceses decidiram em agosto de 2012 associar-se para montar duas plataformas automatizadas similares, chamadas ad exchanges, que colocam em relação direta compradores e vendedores na internet: La Place Média e Audience Square. Na primeira, os grupos Lagardère, TF1, Le Figaro, Amaury, France Télévisions e Marie Claire; na outra, M6, RTL, Prisma, Le Monde, Le Nouvel Observateur, Le Point e Mondadori. O objetivo é o mesmo: reunir as páginas não vendidas na internet e oferecê-las em massa ao anunciante que pagar mais. Um trabalho que exige novas habilidades das agências de publicidade: data scientist (“especialistas em dados”), arquiteto de banco de dados etc.

Assim, os meios de comunicação entraram, sob o modelo do Google e sua rede de comercialização de palavras-chave (AdWords),10 em um mundo de lances em tempo real (real time bidding) que funciona como a Bolsa, por meio de corretores on-line (trading desk). Um mundo em que o número de transações é dez vezes maior que o da Bolsa de Valores de Nova York. Em 120 milésimos de segundo, a partir do momento em que um internauta visita uma página da web, um espaço publicitário vai a leilão, e o maior lance obtém a alocação do anúncio. Esse tipo de comercialização baseado num algoritmo de leilão representa quase 15% da compra de publicidade on-line na França e 30% nos Estados Unidos.

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O paradoxo é que esse mercado, fundado na pertinência de um algoritmo, compromete o ofício tradicional das agências de publicidade, bem como de seus intermediários em consultoria e compra de espaço. De agora em diante, nada mais atrapalha a conexão quase direta entre um anunciante e sua audiência: o trabalho de segmentação já não requer a expertise dos agentes, mas se impõe automaticamente graças ao tratamento dos dados dos internautas e ao poder de cálculo das plataformas de leilão. Quem detém os dados na fonte pode vendê-los.

Para se adaptarem, as agências saídasdos grupos Publicis, Havas, WPP e Omnicom também desenvolveram suas próprias atividades detrading desk, mesmo que isso fira a Lei Sapin, de 1993, a qual proíbe que um vendedor seja também comprador de espaço publicitário. Em julho, o próprio Maurice Lévy, presidente da Publicis, anunciou a fusão de seu grupo com a norte-americana Omnicom, a fim de melhor responder à “explosão dosbig data e da análise em tempo real” e “digerir bilhões de dados para levar uma mensagem relevante a uma audiência muito restrita”.11

Quem vai sair ganhando desse jogo? O leilão do Google AdWords diz respeito a um recurso raro – a palavra cobiçada pelos anunciantes –, enquanto o dos espaços publicitários remanescentes das plataformas está focado num produto quase infinito, o que só pode puxar para baixo o preço da publicidade na internet. Nesse jogo, é ainda e sempre o Google que sai ganhando, com os ad exchanges das mídias constituindo apenas uma resposta global defensiva, sem garantia sobre os rendimentos. Na França, os investimentos publicitários gerados pelos motores de busca, de 1,2 bilhão de euros, são cerca do dobro daqueles da publicidade on-line clássica.

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Em 2020, de acordo com um estudo recente do grupo sueco Ericsson, 50 bilhões de objetos estarão conectados no mundo (La Tribune, 22 set. 2013). Essa onda que nos afoga e que vai permitir que sejamos seguidos nos menores recônditos de nossa intimidade parece ainda mais incontrolável na medida em que traz a inovação digital, novo pilar do crescimento capitalista. Mas ela só é alimentada por nossa própria tendência à “extimidade”, encorajada todos os dias nas redes sociais. “O maior perigo”, resume o blogueiro norte-americano Andrew Queen, “somos nós mesmos, os ‘Little Brothers’ que formam o ‘Big Brother’ do século XXI.”12 

BOX:

No prisma da NSA

“Um bilhão de transações registradas, 7 milhões de números de celular, 20 milhões de e-mails, 150 critérios de qualificação…” Essa relação para um “banco central de dados” não é do Prism, o programa de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana, mas da Mediaprism, filial do grupo La Poste. “Podemos saber o que você comprou em um segundo”, afirma a presidente Frédérique Agnès (Stratégies, 27 jun. 2013).

a13Do conhecimento dos hábitos de consumo à vigilância generalizada dos consumidores, é um passo. Nos Estados Unidos, o Prism, introduzido em 2007, contou com o apoio dos servidores de nove gigantes norte-americanas da internet, incluindo Google, Yahoo, Facebook, Microsoft e Apple, para acessar os dados de cidadãos estrangeiros. A agência de espionagem teria tido acesso direto às bases de dados dessas empresas.(M.B.)

Fotos: L’ombre et la Lumière/La Vetrina di Eros in Becheca/Chuchotements et Plaisir des Yeux

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil/Marie Bénilde.

1 Ler Ariane Krol e Jacques Nantel, “Pesca na banheira”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2013.

2 Agence France-Presse (AFP), 27 jun. 2013.

3 Extensão que pode ser baixada em alguns navegadores para bloquear anúncios.

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4 Alistair Barr, “Google may ditch ‘cookies’ as online ad tracker” [Google pode abandonar cookies com rastreador de anúncios on-line], USA Today, McLean, 17 set. 2013.

5 Ler Hervé Le Crosnier, “A nuvem da informação”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2008.

6 Nicolas Colin e Pierre Collin, “Rapport sur la fiscalité du secteur numérique” [Relatório sobre a tributação do setor digital], Ministério da Economia e Finanças, Paris, 18 jan. 2013. Disponível em: .

7 Ibidem, p.65.

8 Robert Budden, “A TV that knows who you are” [Uma TV que sabe quem você é], Financial Times, Londres, 31 jan. 2013.

9 Ler Kenneth Cukier e Viktor Mayer-Schönberger, “Mise en données du monde, le déluge numérique” [A transformação do mundo em dados, o dilúvio digital], Le Monde Diplomatique, jul. 2013.

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10 Ler Frédéric Kaplan, “Quando as palavras valem ouro”, Le Monde Diplomatique Brasil, nov. 2011.

11 International Herald Tribune, Neuilly-sur-Seine, 29 jul. 2013.

12 AFP, 24 jan. 2012.

Florianópolis é destaque em tecnologia

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Florianópolis é um dos mais destacados polos nacionais de tecnologia. São cerca de 600 empresas que faturam anualmente em torno de R$ 1 bilhão, num cenário que cresce em torno de 20% ao ano. Isso dá ao setor de TI um peso muito grande na economia da cidade. O faturamento é superior ao do setor de turismo, segundo o coordenador da Endeavor em Santa Catarina, Marcos Mueller.

Uma pesquisa realizada pela Endeavor com base em um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre empreendedorismo no país, apresenta a capital catarinense como a cidade com maior percentual de empregados em empresas de alto crescimento. As chamadas EACs são aquelas que tem crescimento médio dos empregos de ao menos 20% ao ano, por um período de três anos, e têm pelo menos 10 empregados no ano inicial de observação. Em termos gerais, o setor que mais apresenta este perfil de empresas no país é o de tecnologia. Tal conceito foi elaborado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)

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Segundo a pesquisa, Florianópolis conta com 22,1% da sua força de trabalho (o equivalente a 19,3 mil pessoas) trabalhando neste perfil de organização. Em São Paulo, o percentual é de 17,6% e no Rio 15,2%. As empresas de alto crescimento em Florianópolis, grande parte delas em setores como o da tecnologia da informação, são responsáveis por 57,3% dos novos empregos gerados no município entre 2008 e 2011, mesmo representando apenas 7,2% do total de empresas da capital.

Entre os fatores que influenciam esse desempenho, Marcos destaca a criação de determinado produto ou serviço que se encaixe com a necessidade do mercado. “As pessoas por trás do negócio, gestão, time, inovação agregada são também todos fatores que afetam diretamente o desempenho de uma empresa”, relata.

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Case de sucesso

Fundada em 2004 pelos sócios Adriano Naspolini, Bernardo de Castro e Gustavo Raposo, a Arvus fabrica tecnologias de eletrônica embarcada e softwares para agricultura de precisão, aplicadas em diversas máquinas agrícolas, facilitando a gestão de plantio e manejo de lavouras. A empresa é um exemplo dos números apresentados pela pesquisa.

Até 2006, os proprietários investiram todos os esforços apenas no desenvolvimento dos produtos, iniciando as vendas em 2007. A empresa, que começou com os três sócios, registrou um alto crescimento e, atualmente, conta com 85 funcionários.

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De acordo com Gustavo, a escolha pelo ramo agrícola foi em virtude da oportunidade de mercado observada pelos sócios. Segundo ele, na época os equipamentos agrícolas eram importados e havia uma grande demanda por máquinas nacionais.

“Fomos pioneiros no país no desenvolvimento de um portfólio completo para agricultura de precisão, e por sermos os desenvolvedores, oferecemos produtos de alta tecnologia que se adaptam ao ambiente brasileiro”, comenta Bernardo.

Com uma linha de soluções que integra pilotos automáticos, controladores de fertilização e pulverização, monitores de plantio, entre outras tecnologias, o próximo passo da empresa de Florianópolis é a expansão no exterior. “Temos projetos para fortalecimento da presença nos setores de grãos e sucroalcooleiro, além consolidação florestal, mas já estamos buscando iniciativas para a internacionalização”, explica Gustavo. Além disso, para 2014, o empresário ressalta que irão investir em uma nova plataforma de produto.

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Mais sobre o estudo

A terceira edição do estudo Estatísticas de Empreendedorismo foi realizada em sete capitais e entre os principais dados, destaca que apenas 1,5% do total de empresas empregadoras no Brasil foi responsável por aproximadamente 50% do total de postos de trabalho gerados entre 2008 e 2011, o que equivale a quase 2,8 milhões de novos empregos.

De acordo com Marcos Mueller, esta nova edição do estudo é mais um instrumento para a análise das características do empreendedorismo de alto impacto na economia brasileira, além de reunir informações essenciais para a elaboração e condução de políticas públicas para fomento a empresas de alto crescimento. “As empresas de alto impacto, ou seja, aquelas que geram empregos e renda a uma taxa acima da média são verdadeiras protagonistas do desenvolvimento econômico local e nacional, por isso precisamos conhecer suas características e o cenário onde atuam”, finaliza.

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Fotos:olhares.uol.com.br/www.falaturista.com.br/viagensevivencias.blogspot.com/www.tripadvisor.com.br
Fonte: www.noticenter.com.br

O desvio do nosso dinheiro

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As eleições nos custam R$ 2 bilhões, é até pouca coisa. Mas a manipulação permitida nos custa centenas de bilhões por meio dos mecanismos que se tornaram legais ou de difícil controle judiciário. A deformação do sistema tributário desonera os muito ricos e fragiliza o setor público, reproduzindo a desigualdade

O Brasil não é pobre. Mas seus recursos são frequentemente mal utilizados, ou desviados, vazando pelas numerosas brechas, legais ou ilegais, quando poderiam ser produtivos. E não se trata de, como sempre, culpar o governo: são articulações públicas e privadas que deformam o processo decisório. Seguir o dinheiro ajuda a entender a dinâmica tanto deste como das deformações políticas. Cada um de nós conhece alguns aspectos e suspeita de outros. Mas vale a pena descrever os principais mecanismos e ver como se articulam.

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A compra das eleições

Os grandes vazamentos não se dão, de forma geral, por meios ilegais, pois são praticados por grupos suficientemente poderosos para adaptar a legalidade aos seus interesses. O ponto de partida, portanto, está na apropriação da máquina que faz as leis. No Brasil, a lei que libera o financiamento das campanhas por interesses privados é de 1997.1 Quanto mais cara é a campanha, mais o processo é dominado por grandes financiamentos corporativos e mais a política se vê colonizada. O resultado é a erosão da democracia e custos muito mais elevados para todos, já que os gastos com as campanhas são repassados para o público por meio dos preços. Nos Estados Unidos, onde um sistema semelhante foi instalado em 2010, Hazel Henderson comenta: “Temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”.

Os grupos econômicos podem contribuir com até 2% do patrimônio, o que representa muito dinheiro. Os professores Wagner Pralon Mancuso e Bruno Speck, respectivamente da USP e da Unicamp, estudaram os impactos. “Os recursos empresariais ocupam o primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral).”2

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O custo das campanhas é até, em termos relativos, um mal menor se comparado aos custos de uma política estruturalmente deformada. Na realidade, é um desencadeador de deformações. A representação desequilibrada gerou um sistema tributário que onera proporcionalmente os mais pobres, levando à reprodução da desigualdade. Criou-se também uma cultura de superfaturamento de obras que a colusão entre políticos e grandes empreiteiras permite. Mais grave ainda, deforma-se o uso final dos recursos, por exemplo, com priorização do transporte individual nas grandes cidades ou do transporte rodoviário para transporte de carga, e assim por diante. E, em termos políticos, o sistema corrói o processo democrático ao gerar uma perda de confiança popular na política em geral.

O sistema gerou sua própria legalidade. Em 1997, transformou-se o poder financeiro em direito − o direito de influenciar as leis, às quais seremos todos submetidos. Ético mesmo é reformular o sistema e acompanhar os países que evoluíram para regras do jogo mais inteligentes e limitaram drasticamente o financiamento corporativo das campanhas.

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A armadilha da dívida pública

Acostumamo-nos a que tipicamente 5% de nosso PIB seja desviado via governo para intermediários financeiros, sem que produzam nada. Pelo contrário, desviam-se os recursos do investimento produtivo para a aplicação financeira. Para cobrir os juros sobre a dívida, o governo FHC elevou a carga tributária de 26% para 32% do PIB. De algum lugar tinha de vir o dinheiro.

No momento em que Lula assumiu o governo, em 2003, a taxa Selic estava em 24,5%. Em junho de 2002, a dívida pública tinha chegado a 60% do PIB; hoje está mais próxima de 35%, e os juros pagos sobre a dívida baixaram para menos de 10%, mas o estoque da dívida é maior. Foi fácil abrir a torneira, fechá-la é muito mais complicado. Em comparação, a taxa oficial de juros praticada internacionalmente é da ordem de 0,5% a 2%.

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A partir do governo Lula, o sistema foi sendo gradualmente controlado. Ainda assim, é uma transferência de dinheiro público para não produtores que se conta, como ordem de grandeza, em algo como R$ 150 bilhões por ano. É um sistema legal conseguido por meio do apoio político comprado com dinheiro corporativo e repassado ao consumidor nos preços que paga. Para os grupos que vivem de renda financeira, e não de produção, em vez de ir contra a lei, é mais prático fazer a lei ir ao seu encontro.

No braço de ferro que hoje se desenrola, a cada vez que se baixa meio ponto da Selic, o mundo financeiro grita na mídia, todos ameaçam com a inflação, pedem “responsabilidade” ao governo, conseguindo inclusive reverter o processo de baixa. A evolução é resumida por Amir Khair: “A dívida líquida do setor público foi marcadamente influenciada pela Selic. No início do governo FHC estava em 28% do PIB e, mesmo com a megavenda de patrimônio público com privatizações, ao final do governo chegou a 60,4%. A elevada Selic foi a responsável por isso. No final do governo Lula, tinha baixado para 39,2% e em julho estava em 34,9%. Caso a Selic continue caindo, é capaz que ao final do governo Dilma seja possível retornar próximo da que estava no início do governo FHC”.3

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Uma monumental transferência de recursos públicos para rentistas que, além de nos custar muito dinheiro, desobriga os bancos de fazer investimentos produtivos que gerariam produto e emprego. É tão mais simples aplicar nos títulos, liquidez total, risco zero. Realizar investimentos produtivos, financiando, por exemplo, uma fábrica de sapatos, envolve análise de projetos, acompanhamento, enfim, atividades que vão além de aplicações financeiras.

A manipulação dos juros comerciais

Os intermediários financeiros e rentistas não se contentam com a Selic, taxa de juros oficial sobre a dívida pública. Recorrem a um segundo mecanismo, que é a fixação de elevadas taxas de juros ao tomador final por bancos comerciais, mecanismo diferente da taxa Selic, tanto assim é que a Selic baixou radicalmente diante dos 25-30% da fase FHC para os 8,5% atuais, sem que houvesse redução significativa dos juros dos bancos comerciais.

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Naturalmente, os bancos comerciais, como entidades privadas, afirmam que são livres para praticar os juros que quiserem. A coisa não é assim, por uma razão simples: como trabalham com dinheiro do público, e não deles, devem seguir regras definidas pelo Banco Central, e mesmo um banco privado precisa de uma carta-patente que o autorize a funcionar dentro de certas regras. Estas, naturalmente, vão depender da capacidade de pressão política.

Como se trata de dinheiro do público apropriado diretamente pelos intermediários financeiros, sem mediação do governo, poderíamos achar que não é desvio de dinheiro. De certa forma, quando tiram nosso dinheiro sem a ajuda de um político, seria por assim dizer mais limpo. Habilidade de um lado, ingenuidade ou impotência do outro, mas não corrupção. Essencial para nós é que só se podem sustentar no Brasil juros tipicamente dez vezes maiores (dez vezes, não 10% a mais) em relação aos praticados internacionalmente mediante apoio político. E, como durante longo tempo tivemos banqueiros na presidência do Banco Central, montou-se mais um sistema impressionante de legalização do desvio de nosso dinheiro. Essa “ponte” entre o político e o comercial precisa ser explicitada.4

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O artigo 170 de nossa Constituição define como princípios da ordem econômica e financeira, entre outros, a função social da propriedade (III) e a livre concorrência (IV). O artigo 173, no parágrafo 4o, estipula que “a lei reprimirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros”. O parágrafo 5o é ainda mais explícito: “A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular”. Cartel é crime. Lucro exorbitante sem contribuição correspondente produtiva será “reprimido pela lei” com “punições compatíveis”.

Estudo do Ipea mostra que a taxa real de juros para pessoa física (descontada a inflação) cobrada pelo HSBC no Brasil é de 63,42%; no Reino Unido, é de 6,6% (no mesmo banco, para a mesma linha de crédito). Para o Santander, as cifras correspondentes são 55,74% e 10,81%. Para o Citibank, são 55,74% e 7,28%. O Itaú cobra sólidos 63,5%. Para pessoa jurídica, área vital porque se trataria de fomento a atividades produtivas, a situação é igualmente absurda. O HSBC, por exemplo, cobra 40,36% no Brasil e 7,86 no Reino Unido.5

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No conjunto, trata-se de um desvio de dinheiro da economia real, via uma forma institucional ilegal, que é a “dominação dos mercados, eliminação da concorrência e aumento arbitrário dos lucros” que a Constituição condena em termos inequívocos. Diante dos números, há alguma dúvida quanto à ilegalidade? Não há notícias de julgamento a esse respeito, e sim de muitas denúncias no Procon, Idec e outras instituições, e milhões de pessoas se debatendo em dificuldades. O Serasa-Experian, hoje empresa multinacional, guardiã da moralidade financeira, decreta que brasileiros passam a ter o nome sujo, ou seja, pune quem não consegue pagar os 238% hoje cobrados no cartão, e não quem os cobra.

Os paraísos fiscais

Um dos efeitos indiretos da crise mundial é que há um forte avanço recente no estudo dos grandes grupos econômicos e das grandes fortunas. Aliás, o imenso esforço de comunicação destinado a atribuir a crise financeira mundial ao comportamento irresponsável dos pobres, seja nos Estados Unidos ou na Grécia, é patético. Um estudo que sobressai, de autoria do Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH, na sigla alemã), constatou que 147 corporações, das quais 75% são grupos financeiros, controlam 40% do sistema corporativo mundial. Num círculo um pouco mais aberto, 737 grupos controlam 80%. Nunca houve, na história da humanidade, nada de parecido com esse nível de controle planetário por meio de mecanismos econômicos e financeiros. A apropriação ou no mínimo fragilização das instituições políticas perante esses gigantes torna-se hoje fato comprovado.6

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Corroborando essa pesquisa, e focando inclusive em grande parte os mesmos bancos, temos hoje outra pesquisa de grande porte, liderada por James Henry, ex-economista-chefe da McKinsey, e realizada no quadro da Tax Justice Network. Em termos resumidos, o estoque de recursos aplicados em paraísos fiscais é hoje da ordem de US$ 21 trilhões, um terço do PIB mundial. O Brasil participa generosamente com cerca de US$ 520 bilhões, mais de R$ 1 trilhão, cerca de um quarto do nosso PIB. São dados obtidos por meio de cruzamento de informações dos grandes bancos, do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) da Basileia, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, de bancos centrais e de várias instituições de pesquisa ou de controle. Nada de invenções: trata-se no essencial de juntar os dados de forma organizada, com metodologia clara e transparente, e indicações da relativa segurança ou insegurança dos dados a cada passo. Essa peça informativa fazia muita falta, e passamos agora a ver o que acontece com tanto dinheiro ilegal que resulta das várias formas de corrupção.7

A economia trata da alocação racional de recursos. Aqui há pouca racionalidade, a não ser que olhemos da perspectiva dos que deles se apropriam. As eleições nos custam R$ 2 bilhões, é até pouca coisa. Mas a manipulação permitida nos custa centenas de bilhões por meio dos mecanismos que se tornaram legais ou de difícil controle judiciário. A deformação do sistema tributário desonera os muito ricos e fragiliza o setor público, reproduzindo a desigualdade.

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A irracionalidade das infraestruturas custa bilhões e nos atinge a todos, gerando um país de altos custos. Os cerca de R$ 150 bilhões de juros pagos a rentistas são um desvio radical de dinheiro que poderia ser transformado em investimentos. Os imensos recursos que constituem nossas poupanças depositadas em bancos poderiam servir ao fomento econômico, e não à agiotagem com as taxas de juros praticadas. O escoamento dos recursos gerados para paraísos fiscais, cerca de R$ 1 trilhão acumulados no caso do Brasil, nos priva de recursos necessários ao desenvolvimento, sustenta uma ilegalidade que virou cultura e deforma profundamente tanto o sistema político como o econômico. São as regras do jogo que estão viciadas.

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Fotos: La Dama Nera/ Brunes, Blondes, Rousses
Fone: Le Monde Diplomatique Brasil

Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, e professor titular da PUC-SP. É autor de A reprodução social e Democracia economômica – um passeio pelas teorias (contato http://dowbor.org).

Ilustração: Daniel Kondo

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1 O financiamento está baseado na Lei n. 9.504, de 1997: “‘As doações podem ser provenientes de recursos próprios (do candidato); de pessoas físicas, com limite de 10% do valor que declarou de patrimônio no ano anterior no Imposto de Renda; e de pessoas jurídicas, com limite de 2%, correspondente [à declaração] ao ano anterior’, explicou o juiz Marco Antonio Martin Vargas, assessor da Presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo”. Citado por Elaine Patricia da Cruz, “Entenda o financiamento de campanha no Brasil”, Exame, São Paulo, 8 jun. 2010.

2 “Pouquíssimos candidatos conseguem se eleger com pouco ou nenhum dinheiro”, comenta Mancuso, que coordena o projeto de pesquisa “Poder econômico na política: a influência de financiadores eleitorais sobre a atuação parlamentar”. Ver mais em Bruna Romão, Agência USP. Disponível em: <http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/investimento-de-empresas-influencia-sucesso-em-eleicoes/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje>.

3 O Estado de S. Paulo, 9 set. 2012.

4 “A corrupção foi frequentemente interpretada de maneira estreita, focando excessivamente o setor público e ignorando o privado. O Banco Mundial tem um approach ainda mais estreito, definindo corrupção como ‘o abuso do serviço público para ganho privado’. Esse foco no setor público como a única arena da corrupção não é apenas arbitrário. É errado e, inclusive, pernicioso.” Tax Justice Network. Disponível em: <www.taxjustice.net/cms/front_content.php?idcat=100>.

5 Ipea, “Transformações na indústria bancária brasileira e o cenário de crise”, Comunicado da Presidência, abr. 2009, p.15. Disponível em: <www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/09_04_07_ComunicaPresi_20_Bancos.pdf>.

6 Para uma análise sumária dos resultados da pesquisa do ETH, ver: <http://dowbor.org/2012/02/a-rede-do-poder-corporativo-mundial-7.html/>.

7 “Uma fração significativa da riqueza financeira privada global – segundo nossas estimativas, pelo menos de US$ 21 trilhões a US$ 32 trilhões em 2010 – foi investida praticamente sem impostos através do buraco negro mundial ainda em expansão de mais de oitenta jurisdições offshore sigilosas. Acreditamos que estes sejam números conservadores. Nessa escala, a economia em paraísos fiscais é grande o suficiente para ter vasto impacto nas estimativas de desigualdade de riqueza e renda, e nas estimativas das rendas nacionais e nos níveis de dívida; e – mais importante – ter um impacto negativo bastante significativo nas bases fiscais nacionais de países key source (ou seja, aqueles que têm visto ao longo do tempo fugas de capital privado não registradas).” Tax Justice Net, p.3. Disponível em: <www.taxjustice.net/cms/front_content.php?idcat=148>.