#MeuAmigoSecreto

a1

A tag viral #MeuAmigoSecreto tem feito sucesso nas redes sociais e deixado alguns homens bem incomodados. Trata-se de uma campanha para que as mulheres denunciem comportamentos machistas, transfóbicos, homofóbicos e racistas de seus “amigos”. Selecionei 16 das melhores postagens.

‪1) #‎meuamigosecreto‬ diz que não gosta de se relacionar com mulheres que “pensam demais”, pois da muito trabalho. (@TatianaTrad)

2) ‪#‎meusamigossecretos‬ não compreendem que a questão de não citar nomes diz respeito a não criar uma discussão em torno de um alguém, porque, se falamos em terceira pessoa, estamos falando de uma estrutura, de uma lógica. meu amigo secreto não entende que a história não tem sujeito e acha que estamos sendo covardes: compre um espelho, parça. (@BarbaraPessoa)

a2

3) #‎meuamigosecreto‬ tem muitas amigas negras, transa com algumas, considera algumas particularmente especiais, mas só namora com brancas preferencialmente classe média, prefere entrar num relacionamento com uma branca pela qual não demonstra nem afeto nem respeito pois ainda que ache a brother negra mais interessante e mais bacana, não vai querer ser visto por aí de mãos dadas com uma negra. Meu amigo existe aos montes. (@EstranhaGrazy)

4) ‪#‎meuamigosecreto‬ é professor. Já deu aula no ensino médio quando pediu pra aluna, menor de idade, pagar boquete pra não ser reprovada na matéria. Na faculdade de Teatro ele pedia pras meninas fazerem cena de sexo, mas só pras meninas. Agora tá dando aula no meu curso novo. Vem no inbox puxar conversinhas e na sala de aula aproveita pra, sempre que possível, passar a mão em algumas partes dos corpos das minas. (Mariana Galvan)

a3

5) ‪‪#‎meuamigosecreto‬ diz que é doido para ser pai futuramente, mas se a namorada ficar grávida agora, diz que ela é uma moralista porque não quer abortar e chega até dizer pra enfiar um cabide lá dentro e usar um remédio que, se ingerido quando a mulher está grávida, o feto fica deformado. (@IsabellaOliveira)

6) #‎meuamigosecreto‬ tira fotos das mulheres com quem ele transou enquanto elas dormem e compartilha em grupos “zoeira” do whatsapp. (@LuaCalasans)

7) ‪#‎meuamigosecreto‬ antes de me conhecer pessoalmente disse que eu era interessante e muito bonita e pediu para ficar comigo, mas depois que descobriu que sou deficiente disse que queria ser apenas meu amigo. Obrigada querido, mas de preconceituosos só quero distância mesmo. (@BelaAngel)

a4

8 ) #‎meuamigosecreto‬ é filósofo e livre pensador. Mas quando uma aluna faz uma pergunta inteligente em aula ele responde com: “nossa, a cor da sua roupa ressalta sua beleza”. (@NaniCoimbra)

9) ‪#‎meuamigosecreto‬ se orgulha de ter “traçado” – sim, é esse o termo que ele usa – 5874629864 mulheres. Ele só sabe transar usando o pinto, e acredita que a coisa toda se resume a estocadas frenéticas e vigorosas. Como diria Alexandre Frota, o negócio é comer cu e buceta. Obviamente, ele tem nojo de sexo oral. E compra as videoaulas de educação sexual no câmelo – “7 DVD é 10, minha gente”. Ou então assiste no redtube mesmo. (@AlineXavier)

10) ‪#‎meuamigosecreto‬ sou eu. Fui criminosamente adestrado pra ser machista e mesmo achando que não sou, devo ser em algum ponto cego. Se acontecer ou quando acontecer, me denunciem. (@PedroPonde)

a5

11) ‪#‎MeuAmigoSecreto‬ escreve poesia intencionada exclusivamente para ter moral com o sexo feminino. Ele se considera “poeta”, mas, sua “poesia” se caracteriza apenas por elogios clichês e supérfluos direcionados às meninas, para, assim, ganhar reconhecimento, coraçõezinhos, seguidores e likes em sua página. E pior: ele consegue. (@EsterBarroso)

12) ‪#‎meuamigosecreto‬ se sente seguro categorizando o mundo entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”. Assim ele pode ser preconceituoso à vontade e se sentir socialmente respaldado. (@IsadoraSebadelhe)

13) ‪#‎meuamigosecreto‬ terminou com ex pq não suportava a igualdade de direitos que ela impunha. Como pode alguém gostar de sexo tanto quanto eu? Como pode se destacar profissionalmente tanto quanto eu? Meu amigo optou por uma mulher “menos”. Até hoje meu amigo manda mensagem pra ex querendo “mais”. Coitado do meu amigo. (#MarianaSena)

a6

14) ‪#‎MeuAmigoSecreto‬ sempre foi um pai de família responsável e amoroso, afinal, ele sempre quis ser pai. Menos quando encontrou uma outra mulher e ele não pensou duas vezes em abandonar tudo que construiu, dificultando ao máximo a vida das suas filhas, inclusive suspendendo quando queria a pensão. A última foi a anulação da assistência médica. Meu amigo secreto acredita que pagando pode se eximir da função de pai. (@RaissaFigueiredo)

15) ‪#‎meuamigosecreto‬ é jovem, universitário, e acha que toda reação promovida pelas mulheres até agora é pura modinha e fica de saco cheio em ver tantos #meuamigosecreto, que provavelmente, são amigos dele e é ele TB. Ele só n sabe o quanto é idiota por n entender que não há nada de moda, há luta, há necessidade de combater toda forma de agressão contra as mulheres, um machismo, uma violência enraizada há mais de séculos. Então, #meuamigosecreto, acorda e vai estudar um pouquinho. Abaixa teu rabinho e ‪#‎aceitaquedoimenos‬, pq ainda vai ter mto papelzinho voando por aqui. (@EmiliPinheiro)

a7

16) #meuamigosecreto É tenente da Polícia Militar. Apresentou-se como o oficial responsável pela comunicação da tropa de uma cidade da Grande São Paulo. Isso significa que ele é o policial habilitado para falar com jornalistas. Esse tenente passou alguns vídeos para uma reportagem através de mensagens no WhatsApp. Para mim e para outros três colegas (homens). O meu contato com ele foi esse. Apenas esse – o número nem ficou salvo na agenda. Dias depois, esse oficial da PM me mandou outra mensagem. Dizendo que eu era linda, princesa e mais um monte de baboseiras. Cortei com educação, explicando que além de ser casada, não admitiria esse tipo de aproximação abusiva seja qual fosse o meu estado civil. E aí o cara me xingou. Ameaçou também. Mudou a foto do avatar do WhatsApp para uma em que ele aparecia com uma pistola em punho. Disse que eu era folgada e algo como “vai trombar comigo na rua”. Fui para a Corregedoria. Onde só fui ouvida porque sou jornalista. Mas não sem um “ah, mas não é pra tanto, vai”. #meuamigosecreto foi afastado do cargo, eu soube. Mas quantas mulheres será que ele ainda ameaça com uma arma quando ouve um não? (@ThaisNunes)

Fotos: Artistic Smut
Fonte: DCM/Nathali Macedo

a8

O prazer feminino

30

Antes de qualquer coisa, uma confissão: eu me masturbo. E não é pouco. A sua namorada se masturba, a sua mãe se masturba, a sua tia, a moça de óculos com cara de recatada que senta ao seu lado na sala de aula, aquela senhora de meia idade que cruza com você na fila do cafezinho no trabalho. Todas nós buscamos o prazer saudável e solitário que só a masturbação é capaz de nos presentear: no redtube, na literatura erótica, nos grupos eróticos no facebook ou na nossa fertilíssima imaginação – que nem sempre contempla aos homens que amamos.

Assim como vocês, nós podemos sentir prazer imaginando uma transa proibida com o vizinho casado ou com aquele ator que você insiste em dizer que “não é isso tudo”.

Dito isto, me ocorre: porque exatamente isso é uma confissão? Porque não podemos, assim como vocês, dizer numa roda de conversa que nós sentimos prazer sozinhas e que adoramos o nosso vibrador novo?

O prazer feminino ainda é um tabu. E o mais ininteligível nisto é que nós, mulheres, que somos tão absurdamente sexualizados pela mídia, pela indústria pornográfica e pelo imaginário masculino de um modo geral, não podemos assumir essa sexualização quando se trata do prazer propriamente dito.

A sexualização feminina só é socialmente aceita quando convém; sexualizar o corpo da mulher em prol do prazer masculino nunca foi uma aberração.
Quem não se lembra do caso de Luana Piovanni – e do estardalhaço desnecessário pela aparição acidental de um vibrador ao fundo de uma selfie?

27

Quando ela – Luana – ou qualquer outra mulher aparece seminua numa revista masculina, não há indignação – afinal, peitos e curvas a serviço da masturbação masculina – essa sim aceita e, inclusive, incentivada – não são novidade. Mas admitir que esta mesma mulher pode sentir prazer sem o auxílio de um homem é absurdo, imoral, quase inaceitável.

É fácil admitir que a mulher pode ser sexualizada pelo homem – e aqui não estamos tratando de um sujeito específico, mas de um sistema, da lógica patriarcalista – mas é inaceitável que nós possamos usufruir, sozinhas, de nossa própria sexualidade.

O tabu da masturbação feminina vai além da hipocrisia: passa pela ideia de que nós não podemos sentir prazer sozinhas sem que isso fira de morte o ego masculino – já que o homem é dito, em todos os lugares do mundo e desde o início dos tempos, como o grande e indispensável provedor, aquele que satisfaz – em todos os sentidos – a sua fêmea.

26

Desconfio que é este pensamento que nos aprisiona nesse casulo de constrangimento quando se trata de nossa própria sexualidade; que faz com que ainda haja multilação genital na África e com que mulheres precisem usar pseudônimos para escreverem contos eróticos para que não sejam importunadas por desconhecidos.

O patriarcado prefere acreditar que nós precisamos dos homens para sentirmos prazer. Sinto informar: vocês estão redondamente enganados.

Fotos: Artistic Smut
Fonte: DCM/Nathalí Macedo

25

Minhas paixões de cada signo

40

Esses dias conheci um ARIANO e me apaixonei. Delicado como um rinoceronte, ele logo me mandava à merda por qualquer tentativa de drama e utilizava aquele método infalível de resolução de brigas na cama. E como gostava de brigar. Arrumava encrenca na mesma frequência com que eu tomo pingado e ai de quem ousasse dizer que ele estava errado. Ficava irado. Não dava a mínima para os outros e tinha energia para mover uma montanha se precisasse. Eu gostava dele. Pena que ele descobriu. Se eu não tivesse falado, talvez o amor não tivesse acabado.

36

Conheci um TAURINO. Saímos para jantar. Saímos para almoçar. Saímos para tomar café-da-manhã, brunch, chá da tarde e ceiar. Nunca comi tão bem. Ele sim sabia viver: comer, beber, dormir, transar. Ele queria ter prazer todos os dias da vida, nenhum podia faltar. A vida ao lado dele era ótima até ele começar a teimar. Teimava feito mula; não touro. Era possessivo e não mudava. Senti falta dele mas precisei terminar. Vai que ele decidia me amarrar.

31

Eis que me encantei por um GEMINIANO. Ele falava, falava, falava sem parar. Ainda assim nunca entendi o que ele pensava. Acho que nem ele mesmo se entendia. Estava sempre pensando em uma opinião para mudar. Era a alegria em pessoa e contagiava minha vida. Pena que mudou de opinião rápido demais e foi espalhar alegria em outro lugar. Só acho que não custava avisar.

10

Saí meia dúzia de vezes com um CANCERIANO e ele logo falou em casar. Me apresentou para a mãe e disse que pretende morar sempre com ela, nunca a deixar. Me assustei mas achei fofo. Ele era romântico e cuidadoso: queria mesmo me mimar. Fazia drama por quase tudo e eu me vi obrigada a partir quando ele quis que eu assinasse um contrato me comprometendo a nunca terminar. Coisa difícil de jurar.

11

Avistei um LEONINO e me apaixonei à primeira vista. Tão discreto quanto um javali de saia, só ele queria brilhar. Era o centro de tudo, era o centro do mundo e eu estava ali só para admirá-lo reinar. Era a generosidade em pessoa. Fazia tudo para conquistar mais um admirador para o seu bando e o amor só acabou quando eu, num instante de insanidade, pensei na estranha possibilidade de liderar.

41

Comecei a sair com um VIRGINIANO e morria de medo de me sujar. Ele corrigia qualquer verbo conjugado às pressas, reparava em unhas descascadas, roupas amassadas e assim que me via, vinha me cheirar. Ele era ótimo. A retidão em pessoa. Fazia tudo certinho e o amor só acabou no dia em que eu derrubei shoyu numa calça branca e ele ficou com agonia até de olhar.

35

Me apaixonei por um LIBRIANO e descobri que metade do mundo também. Ele era lindo, simpático e charmoso e eu até fingia não ver o telefone dele tocar porque ele fazia de tudo para me agradar. Era a diplomacia em pessoa. O amor só acabou porque eu pedi para ele escolher um restaurante para a gente jantar. Ele ficava confuso com esse negócio de escolhas. Estou esperando até agora ele me ligar.

38

Conheci um ESCORPIANO e nem sei por onde começar. A gente mal se conhecia e ele já sabia o nome e o RG de todos os meus ex-namorados. Era perito em stalkear. Tinha ciúme até da sombra mas no começo fingia nem ligar. Tinha casca grossa, coração mole e pensava o tempo todo em transar.  Queria sossego mas não conseguia desestressar. Tive que deixá-lo porque já estava cansada de lembrar da briga da primeira semana. Ele não consegue esquecer. Liga até hoje para me xingar.

33

Esbarrei com um SAGITARIANO e me encantei pelas piadinhas sem graça e o jeitinho sexy sem ser vulgar. Ele era incrível. Só pensava em viajar. Estava a cada hora em um lugar. Vivi aventuras incríveis ao lado dele e não sei porque caí na besteira de pedir para ele sossegar. Vai ver foi por isso que ele decidiu terminar.

34

Conheci um CAPRICORNIANO e me apaixonei por tamanho foco e responsabilidade. Ele era curto, grosso e objetivo: só pensava em trabalhar. Fazia planos. Tabelas. Planilhas. Fazia contas até para o bate e volta no Guarujá. Um dia pedi um dinheiro emprestado e ele sumiu. Já arrumei o dinheiro. Estou esperando ele voltar.

112Me encantei por um AQUARIANO exótico com quem cruzei por aí. Ele se vestia da maneira como bem entendia e vivia em um mundinho particular. Era divertidamente apaixonante mas nem ele sabia o que queria. Dizia que tinha medo de se envolver e era perito em não me responder. Só sei que tudo ia muito bem até que eu mandei uma mensagem e estou há uns 2 anos esperando ele visualizar. Vai entender.

113

Por fim conheci um PISCIANO. Sensível como ele só, fazia caridade e tinha uma baita espiritualidade. Sonhava acordado sem parar e vira e mexe eu tinha que gritar: “volta pra Terra, meu filho, para de viajar.” Se distraía nos próprios sonhos e era a pessoa mais bondosa do mundo. Só tive que terminar porque ele se distraía, me deixava falando sozinha e sabe como é: às vezes é bom ter alguém na Terra para conversar.

42

Brincadeiras à parte, só sei que sou grata às diversões que todas as paixões já me proporcionaram e me alegro genuinamente por ter aprendido tantas coisas interessantes com as individualidades de cada ser humano com quem já compartilhei meu tempo. Quero continuar a me apaixonar e a me entregar porque no fim das contas o importante é isso: rir das nossas experiências e carregar conosco só o melhor do que as pessoas puderam proporcionar. Mesmo os arianos. (É só brincadeira. Não precisam brigar.) Hahahaha

a28

Fotos: Les deux tentatrices/SwannSong’s Erotica/Tʜє ᗯɪʟᴅ Sɪᴅє
Fonte: Entenda os homens/Eduarda Costa

Memórias de uma advogada 1

35

A partir de hoje, ANÔNIMA escreve um folhetim para o DCM. ANÔNIMA é advogada e escritora, uma colunista de sucesso na internet brasileira. Está próxima dos 30 anos. A intenção é publicar um novo capítulo a cada semana. Os textos não são recomendáveis para menores de 18 anos.

Capítulo 1: Duas amigas

Éramos amigas. Eu sempre preferi amigas como ela: menos fotos no espelho e declarações baratas e mais fumaça, gargalhadas e maledicências.

Nosso assunto preferido eram os paus alheios. Ela, particularmente, conhecia mais do que eu. E os que a gente não conhecia viravam o centro da nossa especulação barata. Falávamos do tamanho, do diâmetro, da potência (ou falta de). Eu me sentia privilegiada por falar de paus em vez de sapatos.

36

O álcool sempre nos deixava a vontade – não que não pudéssemos falar dos paus alheios quando sóbrias, mas fazê-lo depois de uns bons drinks era infinitamente mais divertido.

Ela tem o tipo de naturalidade que te prende o olhar por horas, juro. Uma cintura marcada seguida de uns pneuzinhos que – pela quantidade de cerveja que ingere – ela não poderia deixar de ter. As pernas separadas, finas e bem torneadas, o joelho ossudo e charmoso, e o olhar. Ah, o olhar! Apesar disso, eu nunca cultivei – ao menos não conscientemente – um tesão genuíno por ela. Era, afinal, apenas a amiga com quem eu podia falar de paus sem ser surpreendida por olhares de espanto e hipocrisia.

Mas naquele dia o vinho estava mais forte. O chá era dos bons, o incenso, o blues, a meia luz.. Naquele dia falamos dos melhores paus. E descobrimos um assunto melhor, depois.

38

- Você já ficou com a Ana, né?
- Já, uma vez. O pau dela é dos grandes. – referia-se, provavelmente, à qualidade sexual da moça. Caímos na gargalhada pela centésima vez.
- E você, Nath? Já ficou com uma mulher?
- Fiquei, mas não cheguei a ver o pau. Era moça de família. – A coerência do nosso papo era proporcional ao teor de álcool e de erva.
- Cê curtiu?
- Pra caralho.

Ela chegou mais perto. Era menos agressivo que o “chegar mais perto” de um homem. Era despido de necessidade de auto-afirmação e transbordava a mais pura curiosidade e vontade. A língua era quente e o beijo era calmo, sem pressa; era o beijo o personagem principal. Não era figurante de uma transa posterior, quando tantas vezes acontecera comigo. O percorrer daquelas mãos no meu corpo tinha a mesma naturalidade da cintura dela. Os seios, pequenos, cabiam na palma da mão. A gente transpirava álcool e um desejo que não podia mais esperar. O beijo calmo foi incorporando um tesão avassalador – só tesão, não pressa – e as mãos ficaram mais ligeiras, espertas, eficientes. As quatro. As preliminares duraram o tempo necessário. Descobri aqueles seios com a língua, e a buceta não totalmente depilada, e incrivelmente molhada.

39

Prestes a explodir de tesão, fui presenteada com aquela língua no meu clitoris – ela sabia exatamente o que fazer. Gozamos, desfrutando como havia de ser. Sem esperar o depois, porque o agora valia a pena como nunca antes.

Nós nos descobrimos e descobrimos o quanto queríamos isso. Ela sorriu e, ainda bêbadas, gargalhamos pela centésima primeira vez. Ainda havia paus a serem descritos e garrafas a serem abertas.

Fotos: Desires of a Bi-Sexual Women
Fonte: Diário do Centro do Mundo-DCM/Anônima

40

Dar ou não dar, eis a questão

31

A dúvida de Hamlet:

Você tá na porta da sua casa, acabou de voltar muito bem acompanhada da balada. Vocês estão num amasso nervoso dentro do carro, você está morrendo de tesão mas ao mesmo tempo presa em seu conflito interno se chama o cara para entrar e terminar o que começaram, ou se segue os sete mandamentos de como conquistar um cara em dez passos e deixa o convite para depois do quarto encontro, porque “fazendo assim ele não vai me achar uma vadia, não é mesmo?”. Se você se identificou com a situação descrita, na boa, eu tenho pena de você. Me desculpe, mas tenho dó de quem precisa de aprovação para viver. E é por isso que me pergunto: o que aflige tanto as mulheres? Por que temos que praticamente “fingir” que não gostamos de sexo? Por que ainda é tabu a mulher dizer que adora sexo tanto quanto o homem?

Apesar da liberdade sexual que conquistamos nos últimos 50 anos com a criação da pílula anticoncepcional e a entrada feminina no mercado de trabalho, ainda vivemos sob os resquícios de uma ótica machista. Nos foi ensinado, durante séculos, que só havia dois papéis para a mulher: o da casa e o da rua. Em casa, só entrava o sexo para procriação, aquele de luz apagada e no qual a mulher é apenas um instrumento da masturbação masculina. Já a rua era o local das mulheres que dizem sim ao prazer – as tais oferecidas. Chamar a mulher liberada de puta é um vestígio desse maniqueísmo obsoleto. Os nomes mudaram, mas o tratamento para quem transa com vários caras não: o “maçaneta” dos anos 50 evoluiu para o “piranha” que atualmente virou “periguete”. Transforma-se o adjetivo, o preconceito não.

32

O papel de homem e mulher no sexo sempre teve regras. Fazia parte do jogo de sedução a recusa dela e a insistência dele. Apesar de hoje essa dança de acasalamento sincronizada não fazer mais sentido, quantos manuais já foram escritos em revistas femininas ditando os 10 passos que devemos seguir religiosamente para transformar o paquera em um namoro sério? E quantos desses tem como regra número um postergar o sexo? Essas revistas tem uma visão tão equivocada e retrógrada que até a sessão destinada a tratar do assunto se chama “amor e sexo”, como se para as mulheres os dois sempre estivessem atrelados um ao outro e não pudessem existir independentes. E tudo isso em vão, já que se o cara não quiser algo mais sério com você, não vai ser o sexo logo de cara (ou a ausência dele) que vai mudar isso – a não ser é claro que ele seja um machista, mas nesse caso a gente até agradece descobrir isso para se livrar logo do mané.

Aliás, até a ciência comprova que o sexo mais ajuda a engatilhar do que a espantar um possível relacionamento. Estudiosos norte-americanos perceberam que quando transamos nosso corpo libera ocitocina, um hormônio que ajuda a criar laços emocionais com o parceiro. Ou seja, o velho conselho para você “resistir à tentação ou ele vai pular fora na manhã seguinte” é uma furada, perda de tempo.

33

Então pra quê se prender a esses manuais de conduta pré-estabelecidos que tentam padronizar todos os tipos de relacionamento? Por que tantas mulheres continuam escutando-os e adiando o prazer quando poderiam tê-lo aqui e agora? E que tipo de comportamento incentivamos com isso? O de que se a mulher deu na primeira é porque não vale nada? A Charlotte de Sex and the City que me perdoe, mas ao negar nosso próprio prazer também contribuimos para reafirmar e fortalecer o estereótipo da “mulher fácil x mulher difícil”, da “mulher pra casar x mulher pra se divertir”, de que se você afirma que gosta de sexo, você não presta.

Acredito que uma boa parte das mulheres ainda não foca a atenção em si mesma. Fica mais encanada imaginando o que os outros vão pensar e vão dizer, ao invés de preocupar-se com o que ela quer para ela mesma. Mas acredito também que cada vez mais mulheres pulam essa barreira de hipocrisia que separa a mulher-de-casa x mulher-da-rua. Afinal, desejo não tem local nem hora certa para surgir. Sou dessas que, se sentir vontade, transam logo no primeiro encontro. E se você sente algum incômodo com essa afirmação, acho que na real o problema não está em mim, mas sim em você. Se toda mulher é meio Leila Diniz eu acredito na máxima da musa de que “quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose”.

34

Fotos: Tʜє ᗯɪʟᴅ Sɪᴅє
Fonte: Diário do Centro do Mundo –  DCM/Laís Montagnana